Ninguém é da terra, vejo as fotografias e nem consigo ver fantasmas, nem sequer os caminhos invisíveis das memórias, esta gente extinguiu-se com a vida, nossa e deles, se ao menos fosse verdade que mudo a página e no fim do ano reconheço uma cara, como os anos passaram, esta rapariga era tão bonita, como terá sido a sua vida, será que ela se lembra de mim? Envelheceu tanto Nunca mais vi António e Sofia à minha espera, tenho lido poemas para me justificar, mas para quem vive no Pacífico a realidade satisfaz, dizem que por vezes nem sei se Vila do Porto terá existido ou se a terei inventado, não seria a primeira vez que destruímos impérios para um verso imaginário, e não consta que W.H. Auden tenha percorrido as ruas da minha infância? Para me perder bastava-me encontrar uma razão, não existe abandono que nos amaine, felicidade que arruíne a origem da ingratidão, outros fundaram Impérios do Espírito Santo, outros morreram sem me avisar, fomos para a América, temos armas, sotaque, misérias, desejos e dinheiro para salvar o mundo Como é que ela se chamava? Em Vila do Porto Deus existia, Nossa Senhora da Conceição aparecia em procissões e eu ajudava na igreja, quem são as pessoas que invadiram a minha terra? Ou terei ido, para sempre, para um exílio que nunca mais irei regressar Kaváfis esperando bárbaros no aeroporto de Santa Maria, ateus que me converteram, mouros, revoluções, escravos, tempestades, poemas, todas as mulheres do mundo que me amaram mas nunca mais parti para o mar de São Lourenço.
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