Resistir

"Blog" livre, feito a partir do Oceano Pacífico, por António João Correia, um exilado na América do Norte.

"Resistir" is Antonio Correia's free blog. From the Pacific Ocean...

Correio
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31/Jan/2005
Aguentar Portugal
Com milhares de quilómetros de distância, percebe-se (o essencial?) da actual campanha eleitoral portuguesa, dos problemas da pátria:

a) Lopes insinua que o líder da oposição não gosta de mulheres, i.e. que gostará de homens;
b) Sócrates cala-se sempre, pois quanto mais fala mais aflito fica o actual PS que já sente o cheiro do poder (algures entre Edite Estrela, o Cacém e Fernando Gomes);
c) Portas do PP, que também terá um problema com mulheres, é cada vez mais um Rolão Preto ajustado, meio ignorante;
d) O Bloco de Esquerda assume que é uma congregação de monges beneditinos, da moral e bons costumes;
e) O PCP , bem, não faço ideia. Ninguém sabe a idade das múmias.
f) O povo sente-se satisfeito, livre e moderno. Portugal desenvolvido é o que se vê!

Eu é que não aguento esta merda, desculpem mas não aguento.
posted by Antonio Joao Correia @ 6:11 PM  
Notícias do afecto
No caminho do poema resta, sempre, uma ilusão de destruição que leva, sem humildade, ao tumulto do afecto.

Chove nesta cidade, como deverá chover em todas as cidades, e ninguém se comove com a descoberta. Gostaria de escrever o medo que a chuva oferece.

Sabes, tenho saudades de escrever em português, mais pelo som, do que pelo amor.

Quem perder o afecto saberá o caminho do poema, como a subida da lembrança estorva o equilíbrio da agonia.

Haverá um pudor na putrefacção do sentimento. Oiço vozes. Vejo o infinito do teu corpo, lembra-te de me destruíres pela passagem.
posted by Antonio Joao Correia @ 5:01 AM  
30/Jan/2005
Liquor stores
Na América profunda, puritana, com a felicidade e a miséria desprendidas gosto destas lojas que vendem álcool como quem desmonta os segredos dos espíritos de plástico, em esquinas onde tudo terá acontecido.

Existem sempre, como na vida dos romances absolutos, umas criaturas à beira do desespero de compreenderem o sentido da vida, procurando vinhos de qualidade duvidosa e amores de baixo teor, como se fosse possível resumir a agonia alheia em pouco tempo.

Aquela ali, que não sei descrever, abre uma estante e procura uma espécie de whisky como quem desmonta as probabilidades da paixão.
posted by Antonio Joao Correia @ 2:36 AM  
28/Jan/2005
Teologia da libertação
Estranho o número de mulheres que não sabem da minha existência, e eu aqui pronto para seduzir o mundo na minha perfeita ingenuidade, timidez, insegurança e obviamente imaturidade para lidar com a realidade das coisas.

Tornei-me jogador por acaso, num acidente em que poderia falar da vaidade quando fiz a primeira revolução, salvei a pátria e li um poema de António Nobre no mar de São Lourenço, que é meu, diga-se e perceba-se com cuidado.

Sobre a memória das amantes perdi-me num dos espelhos das leituras. Sentei-me perto da campa de Sofia e disse-lhe que agora era feliz, continuava a não acreditar em Deus e nunca mais tinha passado por São Pedro.

A descoberta da paz dá um conforto irresoluto. Interessa-me os artífices do poema na forma selvagem, antes do triunfo da ciência, e a ciência apenas contribui para o caminho que não leva ao mar da minha vida.

Preciso de espaço para explicar, leitores atentos, infernos que me saibam amar por aquilo que eu sou e não por aquilo que poderia ter sido. O destino calou-se.
Imagino que sou como tu leitor e vejo-me a olhar esta montanha, a cidade, as minhas filhas a dormirem, o meu amor e espero por qualquer coisa. Provavelmente pelo destino do poema.
posted by Antonio Joao Correia @ 6:42 PM  
27/Jan/2005
Acho que...
Por vezes imagino que nada sei de Portugal, desta gente.
Gosto, sem remorso, do sossego de viver transitoriamente ausente. Falta-me, pois, a paciência para aturar o óbvio.

O atraso da população é interessante (nada como um povo inculto para perpetuar a injustiça, estupidez e imbecilidade) mas como não existem intelectuais em Portugal o «caso» transforma-se num aplauso pelo masoquismo dos famosos manicómios em auto gestão.
posted by Antonio Joao Correia @ 5:50 PM  
26/Jan/2005
Prova de Deus?
Um " Chambolle-Musigny", Les Gruenchers, Premier Cru (Domaine Dujac).
Sensualidade. Este vinho é sensualidade.
Prova de Deus ?
posted by Antonio Joao Correia @ 6:10 PM  
25/Jan/2005
A boa democracia
Imagino uma pátria entregue à maçonaria, opus dei e ao imprevisto. Com umas tentações em Nossa Senhora de Fátima, futebol e excesso de álcool temos a base para qualquer coisa.

O povo, na sua serenidade, exige mais televisão, hipermercados e desgraças alheias para se sentir feliz.
posted by Antonio Joao Correia @ 6:19 PM  
24/Jan/2005
Modelo
O modelo do amor resulta. Diz-me a minha vizinha.

Será verdade todos os dias?
posted by Antonio Joao Correia @ 6:04 PM  
22/Jan/2005
Pátria II (minudências)
Portugal não tem relações exteriores económicas. Também não promove e protege as suas melhores marcas. Não sabem, não querem. Não faço ideia.

Nesta parte do mundo, apresento os alegados vinhos do Porto (que se vendem muito!):

Rosemount Estates – Old Benson Tawny Port Wine (feito na Austrália, custa 38 dollars);
K.W. V. Paarl Ruby Port (feito na África do Sul, 12 dollars);
Calona – Private Reserve Sonata Port (feito no Canadá, custa 19 dollars);

Cotta Vineyard Port (feito na Califórnia, 20 dollars).
posted by Antonio Joao Correia @ 6:01 PM  
20/Jan/2005
Pátria
Acho que o destino dos poetas não pode ficar comprometido pela sensação das coisas vagas: Portugal não existe, foi uma invenção por entre actos de amor que falharam.

Acordei assim. Com certezas sobre o mundo, seguro da matéria que me rodeia.

Já não temos neve. Chove nesta parte do mundo e eu ando feliz, o que também é irrelevante.
posted by Antonio Joao Correia @ 11:15 PM  
16/Jan/2005
A minha América
Só ontem consegui ver Sideways. Tarde, eu sei, mas também fiquei deslumbrado. Um filme brilhante que foi feito numa das minhas terras preferidas. Espero, com algum snobismo, que a invasão de turistas (do vinho?) mantenha imaculada a visão de liberdade destas terras que estarão sempre nas minhas melhores memórias.

O espaço do filme lembra o melhor da América, a felicidade das pessoas que não desistem de procurar um lugar para sonhar e ser. Pessoas com defeitos, qualidades, lugares comuns, poesia, alienação, realidade, humor e génio. É sempre sobre o amor, e pelo amor, e é aqui que Sideways seduz.

Obviamente que fiquei emocionado com o sucesso do filme. Esta também é a minha América.
posted by Antonio Joao Correia @ 2:01 AM  
14/Jan/2005
Com vista para o Guadiana
A minha filha exige uma refeição americana e acabamos todos num Mcdonald's gigante. Este ou esta Mcdonald's é a porta do inferno de sucesso em versão Gore Vidal com um estilo quase político talvez inspirado no exílio do senhor D. Miguel.

A ementa é um campo de futebol com letras em várias línguas, estando o inglês em leve superioridade. É certamente um Mcdonald's modelo que, entre outras desgraças, testa o que depois irá aparecer em milhares de lugares depressivos. As velhas hambúrgueres (é assim que se escreve?) fazem companhia a dezenas de sandes e, coisa quase nojenta, a uma variante de pizzas, saladas, torradas, ovos, bolos, gelados com bolos, iogurtes com batatas fritas, amendoins, cremes feitos à base de bolachas oreo(?), refrigerantes com manteiga de amendoim, etc., etc. O belzebu tem um parque infantil com capacidade para 200 crianças, dezenas de jogos vídeo e irritantes palhaços que dançam e dão presentes, certamente feitos na China.

Nem nas minhas dramáticas visitas à Disneyland fico tão assustado com o destino desta humanidade que todos os dias conquista mais qualquer coisa ao absurdo. Comi uma sandes de peru com salada de espargos (repito: comi uma salada de espargos num Mcdonald's). O pão era integral.

Sonho com um Robalo no forno, no Nobre em Lisboa, com alheiras e torresmos da ilha de Santa Maria.

Saberão eles da sopa feita em Mértola com vista para o Guadiana?
posted by Antonio Joao Correia @ 6:33 PM  
12/Jan/2005
Boas notícias
Descobri uma loja/café que vende pastéis de bacalhau, doce de ovos e, milagre, polvo. E os donos, que nasceram(?) em Goa, tratam-me por Orson Welles.
posted by Antonio Joao Correia @ 6:02 PM  
11/Jan/2005
A renúncia da sedução
Dou-me bem com poetisas que falharam. Existe qualquer coisa que nos aproxima, uma certa melancolia, perdição estática, remorso de contemplações. Existe uma luz assombrada nas poetisas que não cumpriram.

Gosto dos poemas tristes, que nem chegaram a ser.
posted by Antonio Joao Correia @ 5:42 PM  
9/Jan/2005
A factless autobiography ?
Pessoa em inglês (tradução do óbvio Richard Zenith) tem mais qualquer coisa:
«Let's act like sphinxes, however falsely, until we reach the point of no longer knowing who we are. For we are, in fact, false sphinxes, with no idea of what we are in reality. The only way to be in aggreement with life is to disagree with ourselves. Absurdity is divine»(...).
Fernando Pessoa, The Book of Disquiet, Edited and Translated by Richard Zenith, Penguin Putman Inc,375 Hudson St, NY, NY 10014

posted by Antonio Joao Correia @ 3:07 PM  
Se eu tivesse um poema salvava o mundo
Foi o que ouvi ao subir a montanha.

Talvez não tenha ouvido nada, mas quando falta o oxigénio na montanha é possível ouvir coisas que ninguém sabe se existem no momento ou se são o resultado de leituras perigosas.

A biografia de São Tomás de Aquino é sempre uma leitura perigosa, por exemplo, e obviamente não poderá ser utilizada como modelo de salvação. Existe, dizem, o perigo de aparecer Aristóteles vestido de homem religioso a tentar vender um condomínio fechado em Roma. Ouve-se ainda algo sobre um micro-ondas que grelha ao mesmo tempo, a greve dos jogadores do hóquei no gelo e as contas das Nações Unidas.

Outra questão não menos relevante é perceber se o mundo deseja ser salvo por um poema, ou se deseja ser salvo mesmo sem um poema.

Uma vez, em Vila do Porto, o padre Jacinto, que tinha sentido de humor, tentou salvar uma mulher de um pescador alcoólico, de maus-tratos e abusos terríveis. A mulher depois arrependeu-se e explicou, em público, que preferia a miséria com amor do que a dignidade sem o seu homem. «Ele bate no que é seu», terá dito a mulher resumindo séculos de evolução.

A montanha sabe o que faz com o poema.

Direi Antero, por ser o poeta para estas ocasiões. Antero Quental é um poeta apresentável; uma vez inaugurei um museu (imaginário) de arte moderna em cima da sua campa (agora tem um hipermercado a fazer sombra).

E digo mais, se eu tivesse um poema salvava o mundo.
posted by Antonio Joao Correia @ 9:14 AM  
7/Jan/2005
O caminho da vida


Para ir ver o jogo do Benfica tenho de percorrer este caminho.

Sem satélite privado irei a uma associação (?) de portugueses perdidos do resto do mundo: espaço com antenas gigantes, homens de outros planetas, aguardente, sobreviventes de quase tudo e as memórias do império (tatuagens amor de Mãe, Bafatá 1972, Eusébio é rei, chinelos, rendas de comunhão solene, sapatos de verniz, Portugal na pós modernidade internacional).

Entre o cheiro a fritos e vinho que irei enfrentar faço da fé benfiquista o altar do sacrifício. Pelo Benfica aguento. Estou sentado numa mesa e serei o único que poderia ter jogado no glorioso não fosse o maldito do Lajos Baroti não ter reparado no génio de um falso lento. Se eles soubessem ajoelhavam-se.

Cada um tem as suas fraquezas. Eu ainda não desisti de jogar no Benfica.

posted by Antonio Joao Correia @ 6:25 PM  
O meu jardim

Ali leio a poesia que me salva do mundo, e agora ?


posted by Antonio Joao Correia @ 7:11 AM  
4/Jan/2005
A fuego lento
Li os jornais. Falei ao telefone com os amigos de Lisboa.

O delírio da pátria – em imbecilidade extravasada – cura-se com ausência, disse. Já nem existe paciência para comentar o quer que seja. Resta o horizonte da poesia e as palavras em navegação.

Tenho de levar Portugal para uma memória, uma espécie de procura do tempo perdido em versão neutra.

(cada dia que passa serei mais um estrangeiro na América do Norte do que um português a viver no estrangeiro).
posted by Antonio Joao Correia @ 6:53 PM  
3/Jan/2005
Portugal e o tsunami
Muitos portugueses preocupam-se com merdas insignificantes. Preferem o pormenor da imundície a qualquer acto humanitário. Falam, escrevem mas quando chega a altura de dar o corpinho ao manifesto desaparecem e ficam no conforto da manjedoura estadual a chular, atentos à vírgula, ao regulamento, debruçados sobre a alínea com o rabo no ar.

Existem coisas que ninguém fala, mas a falta de solidariedade portuguesa (quase sempre escondida por um racismo degradante) mete repugnância.

Pátria que deixou Camões morrer à fome e que enche a barriga de Camões sempre que existe uma oportunidade. Pois. Serviços diplomáticos asquerosos, mas qual é a surpresa? Já tentaram renovar um bilhete de identidade num consulado? Pedir uma certidão de nascimento? Será preciso acontecer uma desgraça para se perceber que temos um funcionalismo público – um Estado - comandado pelo vómito, intriga partidária e pelo interesse do negócio privado?


No meio da adversidade, a questão essencial, “kafkaniamente” é o facto de alguns jornalistas dizerem ou escreverem tsunani e não maremoto. A pátria em perigo, a velhaca da língua portuguesa ameaçada, provavelmente por algum dicionário japonês. O ridículo não tem limites.

Tsunami, tsumani, tsumani. Tsunami !

Nesta pátria onde transitoriamente habito, temos mais de 200 línguas no activo e não consta que alguém sinta o inglês em perigo.

Chamo tsunami, maremoto, excremento ou Deus, todos sabem do que falo (e ajudam naquilo que podem).
posted by Antonio Joao Correia @ 9:55 AM  
2/Jan/2005
O artista extraviado
Existe o emudecimento da omissão do teu pensamento
Num dia, assim, cheio de palavras;
Existe o destino ao longo deste Pacífico, meu Oceano adoptivo,
E ficarei famoso no teu desamparo

Vi o que o mundo fez aos poetas
Sem leitores que se vissem, poderás também tentar saltar sem rede: salta!
O poema permite a consequência da exclusão,
Sentires a essência do teu corpo cheio de frases, cicatrizes do ensejo
Horizontes da contemplação
Escrevo para me amares
Existe o caminho do mar que me levava para São Lourenço ou Los Angeles
Num dia, assim, cheio de palavras inúteis,
A matéria do teu corpo constrói cruzadas de aflição.
posted by Antonio Joao Correia @ 3:47 PM  
1/Jan/2005
O que eu faço no mundo (pormenores)
Estou no meu escritório caseiro. Tenho a minha cadela Phoebe (uma Labrador do Montana!) a exigir que abra a porta da rua enquanto todos os outros habitantes dormem.

Oiço Art Blakey, mudo para George Benson. Li o Times, esqueci-me do que vi.

Na televisão, um americano em cuecas tenta convencer-me que Deus quer salvar o mundo. Abri o computador, leio alguns jornais portugueses (com o tempo acho que entro em laboratórios de imbecilidades), passeio pelos «blogs», devolvo postais de Boas Festas, oiço mensagens no telemóvel.

Sento-me numa cadeira mais confortável, na sala. Com duas torradas, bebo café muito forte. O despertador do quarto, em erro, entra em alerta máximo. Gritam reclamações. Irei passear.

A minha vizinha fala-me, neste frio, em grego. Respondo com frases soltas de Platão e acho que falo em frigoríficos, dialéctica, Kant e o Benfica.

Passo por uma mercearia de coreanos que me desejam qualquer coisa. Aproveito para comprar flores.

Regresso, com flores.
posted by Antonio Joao Correia @ 6:47 PM  
Um destino qualificável (com vaidade para Jorge Luís Borges)
Espero por ti dentro da parte mais indescritível da estrada. Convém deixar claro que abandonei a poesia para me dedicar ao ensino de duelos, por amor, e saberei mais da Islândia do que qualquer almoço com Videla poderá ensinar. Também não salvei a minha pátria da idiotice, pior, tornei-me espectador e um perverso assassino de corações imaginários.

Lorca era mau poeta, estamos de acordo, mas havia uma cadência, e a política.

Fui Walt Whitman.

Estudei as posições astrológicas, comprei nas bolsas, atrevi-me a salvar escravos da forca, combati cristãos que se converteram, até li Dante com idade avançada para me salvar da insignificância, e nada.

Vi milhares de livros desaparecerem ao som de um tango de Carlos Gardel, estudei tudo de Astor Piazzola, perdi-me nesse bairro de Palermo, voltei para a América como se alguma vez a tivesse deixado

Vi a injustiça, quatro marinheiros esfaqueados ao som de Umbardo de Lío, mudei de nome, caminhei no reflexo da sombra
Teria de ser naquele lugar o confronto final.
posted by Antonio Joao Correia @ 10:38 AM  
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