| Resistir |
"Blog" livre, feito a partir do Oceano Pacífico, por António João Correia, um exilado na América do Norte. "Resistir" is Antonio Correia's free blog. From the Pacific Ocean... |
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| 30/Dez/2004 |
| O destino do teu amor |
Se deixasse de lado o teu amor seria complacente com a perplexidade de não me entender
Traduziria a forma das possibilidades razoáveis, viveria da poesia e não teria remorsos de
Não saber ler por entre os espelhos que habitam as minhas memórias:
Criaste o espaço desta distância, fecundaste uma teoria do desespero para me tornares feliz,
Traduziria a forma das possibilidades razoáveis, sabes, viveria da poesia, gosto de dizer poemas em voz alta, não teria remorsos de perder a arte da sedução
Os meus poemas naufragaram numa intenção qualquer. Não tenho leitores, nem tu me lês, mas pensas que escrevo para ti se deixasse de lado o teu amor.
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posted by Antonio Joao Correia @ 6:36 PM   |
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| 27/Dez/2004 |
| Poetas imaginários |
Os aeroportos da América são estranhos nesta altura do ano. Vejo gente que não sabe o que se passou com António Nobre numa tarde em Paris, do arrependimento de Mário de Sá Carneiro, da construção de Cesário Verde em Lisboa, da ilusão de Buenos Aires por Borges a imitar Joyce.
Imagine-se que até a senhora da alfândega não me pergunta se Los Angeles conseguiria sobreviver sem estas visitas de médico, se estou feliz, se acredito no desejo. «Have a good day!». Que mulher fria.
Ando aqui por empréstimo, eu sei, e procuro no saco um passaporte que diz um nome ainda mais estranho. Devo mudar o nome, talvez para José Conrad, escritor açoriano que não escreve em português ou com mais razão para Anthony Azores Guevara, espécie exótica de açoriano que não acredita em Deus, acha o Espírito Santo uma fraude simpática e se tivesse soldados faria uma revolução. Sempre me fascinei por uma mini-saia em Dezembro.
Estarás perto leitor ou talvez preferisses que escrevesse sobre Deus e a Ásia, a falta que os romeiros de São Miguel fazem agora no Sri Lanka, da tentação de ser melhor do que a alma, da complexidade do vácuo?
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posted by Antonio Joao Correia @ 9:16 AM   |
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| 25/Dez/2004 |
| Discurso para o “Boxing Day”, a balada do emigrante, versão comercial |
A relíquia isola-se da condição imaginada: caminho em direcção ao “Boxing Day” e perco a definição do razoável; gostarei demasiado das terras da perdição, do silêncio depois da culpa, do espaço entre o que é e o que poderia ter sido.
Vivo numa das melhores cidades do mundo e lembro-me sempre de Vila do Porto (emigrei em 1978) onde até as putas tinham de ter conotação política para arranjar trabalho (o modelo açoriano de ciência política, eu sei, andei por lá, e ainda não acabou, pelo menos tentei e disse que não). Em Ponta Delgada, Lisboa, a semana passada, ainda era assim.
Falarei do tempo do amor, sim, não deixarei espaço para além do egoísmo, quem sabe se alguma miséria de arrependimento por não ter tido tempo de amar ainda mais. Não faço mais nada, sou um amante profissional de eternos desamparados da liberdade; não me interessa se queiram ser salvos ou não, estou aqui. E tu também, aliás, deixa-me salvar-te destas injustiças todas, estás perdido, eu sei. A caminho das lojas.
Estás avisado leitor benévolo, então parte enquanto é tempo e deixa-me entregue ao espaço das probabilidades de nem sermos uma coisa íntima nem algo que passa por amizade do lugar, passagem de elevador, um lugar na auto viação mariense com destino ao lugar de Malbusca, o espaço L 4 do cine Baptista; fomos todos para a América, sabes, e ainda da sensualidade da Maria do Carmo, colega da carteira mais à frente. Desapareceu e também não consta que soubesse de finanças, tal como Cristo. Poética da influência, caro desconhecido que me lês.
Não me pagas com melancolia, enquanto as contas e a glória de escrever acabam nas baladas que se ouviam no Bairro Alto; eu não gosto de intimidades com quem não conheço, faço parte dos bichos-do-mato, aprecio os rebeldes e voto quase sempre em minoria, paciência, vaidade. Percebes o que digo? Ainda haverá aquele anúncio: foi você que pediu um Porto Ferreira, as mulheres do Frágil, em Lisboa, ainda vestirão de preto ou estarão em cirurgia de emagrecimento? Ainda haverá aquela porteira? Claro que não.
Ao longe as montanhas com neve, já que quase que não escrevo em português e deixarei para sempre uma condição irrelevante. Não sei falar português e o meu vizinho, um médico grego que nunca foi à Grécia, apenas me pergunta por um pá para limpar neve. E esta língua? Saberás que Camões foi emigrante e despachado à fome? Pessoa um tradutor de palhaços na Rua da Prata? E as testemunhas que viram o senhor Miguel Torga a desentupir gargantas em Coimbra, olha Camilo Pessanha, vai fumar para o lado; maldita neve, posso explicar que José Rodrigues Miguéis é o melhor escritor português do século XX? Em tempos também descia a Almirante Reis, sem história.
Tenho notícias, pois, dos milhões de poemas que hoje foram feitos, dizem-me que comemos tanto ontem, malditos eclairs (sou um fraco por eclairs), irei nadar. Recebi quarenta emails, respondi a quatro ou cinco. Falta-me paciência (respondo quase sempre a quem não conheço e posso amar, dá-me uma certa esperança). Como se escreve eclairs?
Criaste as possibilidades do poema mas não desenvolveste a angústia que sobra da felicidade, conquistar o mundo, destruir a benevolência dos indecisos, pairar por um ar de coisas mais ou menos felizes, vou a caminho do “ Boxing Day”, estou sentado, o tempo passa e ainda não escrevi.
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posted by Antonio Joao Correia @ 6:53 PM   |
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| 23/Dez/2004 |
| Deus não existe |
A estrutura do amor realiza a probabilidade da emoção. Não há Deus, nem nascimento, nem aquilo que não sei. Brutal ignorância, a dos desesperados ateus, que gostariam de acreditar.
Sou ateu, graças a Deus, mas é na essência do amor que vejo esta noite. Acho que acredito na miséria da condição humana, redenção alucinante. O Menino Jesus saberá da verdade?
Ele, Ele não veio para nos salvar. Ele não existe. Não Nasceu, Morreu, Diz que me amas, não vês que escrevo em aflição, a estrutura do amor,
Então se Existires, reclama autenticidade, poesia, liberdade: é daqui que eu saberei o limite da matéria,
Restará a moral do que deve ser. Dirás do tempo, amor, e é no amor que começo a duvidar da tua não existência
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posted by Antonio Joao Correia @ 6:04 PM   |
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| 19/Dez/2004 |
| Elogio da verdade prodigiosa / Procura da poesia |
O senhor Carlos Drummond de Andrade, de quem sou apóstolo, dizia para não se fazer versos sobre os acontecimentos (« não há criação nem morte perante a poesia»). Dizia ainda que «o que pensas e sentes, isso ainda não é poesia».
A verdade somos nós, leitor. Eu aqui na América do Norte e tu na minha imaginação. Saberá o mundo?
«(...)Repara:
ermas de melodia e conceito,
elas se refugiaram na noite, as palavras
Ainda húmidas e impregnadas de sono,
Rolam num rio difícil e se transformam em desprezo»
Carlos Drummond de Andrade, Poesia Contemplada
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posted by Antonio Joao Correia @ 9:11 AM   |
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| 17/Dez/2004 |
| Paco Bandeira, Joseph Conrad e acho que Bob Marley |
Entro no restaurante português, de alguém da Galiza neste fim de mundo da América do Norte, sem almas. O habitual cartaz do Benfica e um autógrafo de Valdo, antiga estrela. Ao fundo uma bandeira do Futebol Clube do Porto.
Perguntam-me o habitual no mundo da diáspora psicológica, se sou de Lisboa, se é verdade que os Açores são muito bonitos (?), se ainda estou apaixonado pela mesma mulher com quem casei, se já gastei a herança que recebi do meu avô António, se já publiquei alguma porcaria sobre Direito Constitucional ou mercados de valores mobiliários (pelos vistos a minha especialidade mais recente).
De repente, o homem orquestra toca uma música de Paco Bandeira ao melhor estilo de algum marinheiro perdido. Digo que gostaria de ser como Conrad, ainda não me reformei da profissão de navegador, talvez mais urbano...Pois. O homem orquestra, sem aviso, mistura Paco Bandeira com Bob Marley. Deus nos ajude.
O bife é uma coisa exagerada. Talvez meio quilo de carne. A empregada, que é tão atraente, pede-me um conselho jurídico sobre um contrato de arrendamento na Galiza, algo relacionado com um obscuro direito de preferência. Nada sei, acho que ela está apaixonada por mim, por nós todos.
Alguém me explica o que se passa?
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posted by Antonio Joao Correia @ 6:11 PM   |
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| 14/Dez/2004 |
| Poética da libertação |
O estranho pensamento da mulher que me acompanha no elevador está revelado: ela é Nossa Senhora de Fátima e casou com Fernando Pessoa no consulado das Honduras de Paris. Foram testemunhas Santa Rita Pintor, Cardeal Cerejeira, Agostinho da Silva e Vieira da Silva.
E condenamos Vossa Excelência a ser português, diz a voz dentro do alto-falante do elevador que me levará ao oitavo andar, onde trabalho a traduzir açorianos que não existem e foram torturados pela polícia política da inter zona. William Burroughs desce, entretanto, do tecto para o chão, parecendo que carrega uma corda com tatuagens de Amália Rodrigues e de José Saramago.
No sétimo andar entra um negociante de diamantes que carrega cartões oficiais: fornecedor do Senhor Santo Cristo dos Milagres, Governo Regional dos Açores, empresários da construção civil, Santa Casa, associação de travestis da Câmara do Comércio, domesticadores, juízes corruptos e dos advogados especialistas em honorários dos traficantes de drogas duras. Vejo ao longe um Procurador da República que gosta de praticar crimes contra as pessoas indefesas.
No oitavo andar tenho um pequeno gabinete, sem mesa mas com uma cadeira gigante. O chão tem pó e acho que estou em cima de umas antigas cavalariças. Tenho direito a meia janela. Fui banido dos jornais e da televisão e proibido de entrar no palácio por razões de opinião política (que não sei qual é, oh Kafka da açorianidade inventada!). Tenho o telefone sob(re) escuta. Recebo dez ameaças de morte por dia. O Benfica não ganha.
De repente vejo que estes patifes estão a celebrar o prémio da democracia: receberam do povo a legitimidade e eu não existo. Tenho poemas numa ribeira.
O conto está decente, mas terei mesmo de escrever sobre Nossa Senhora de Fátima, num elevador? Talvez o Espírito Santo?
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posted by Antonio Joao Correia @ 6:05 PM   |
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| 13/Dez/2004 |
| O caminho |
 O caminho possível de um açoriano livre.
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posted by Antonio Joao Correia @ 6:57 PM   |
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| O futuro |

Os nativos falavam de um certo desespero poético. O urso ria-se.
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posted by Antonio Joao Correia @ 6:55 PM   |
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| Ver mais |
 Gosto do horizonte dos poetas. Acho que nevou (outra vez...).Ando aqui.
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posted by Antonio Joao Correia @ 6:54 PM   |
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| 12/Dez/2004 |
| Mudar o povo, por favor |
Como alegado socialista ainda corro o risco de ir à campa de António Oliveira Salazar e pedir desculpa: só agora percebo como se governa esta gente.
Onde andará o Senhor D. Miguel? Sidónio Pais estará disponível? Afonso Costa? Nossa Senhora de Fátima? O Eusébio? Pinheiro de Azevedo? Otelo Saraiva de Carvalho? A Maria da Fonte? Camilo Pessanha?
Serei o único revolucionário no activo?
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posted by Antonio Joao Correia @ 6:38 AM   |
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| 11/Dez/2004 |
| Memória (linguagem pouco cuidada, desabafo de café) |
Não deixa de ser curioso: enquanto o PS foi poder da República o governo açoriano aceitou tudo, de colónia para baixo, recusando a verdade, justiça, decência, designadamente sobre o acordo de utilização de uma base militar que também beneficia – do lado português -financeiramente meia dúzia de bandidos, financiadores de partidos e canalhas. E é agora que vem falar, em Dezembro de 2004? Vão para «a puta que os pariu», pois não sei o que é pior se um povo que aceita tudo, se esta gente tirana, hipócrita, cínica e mentirosa que vê na ignorância alheia espaço para justificar o exercício de cargos públicos.
( Escumalha, será que esta gente gosta de ser enganada por escumalha, aqui no sentido de escória ?)
(e lembro-me dos cobardes que aceitaram trair a sua terra para não ofender os colonizadores, cobardes todos de joelhos, de cócoras).
(li as actas verdadeiras de 2000-2001 e nunca tive tanto orgulho, pois houve alguém que disse que primeiro que as alianças da maçonaria, do PS, do PSD, dos negócios, da máfia, estava o povo açoriano)
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posted by Antonio Joao Correia @ 5:48 PM   |
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| 9/Dez/2004 |
| O desalento de ser feliz |
Ontem passei por um grupo de mulheres portuguesas, pobres, remediadas, ricas de amores e da vida. Iriam a caminho de alguma celebração portuguesa, provavelmente religiosa. Olhei, e eu raramente vejo portugueses nesta parte do mundo, e senti que estava atravessando a Graça, em Lisboa, a caminho de São Tomé. Eram as mesmas mulheres que via no “eléctrico”, o olhar distante, casacos escuros, cheiro a laca de fraca qualidade, cansadas, com frio e a alma desajeitada por tanta esperança.
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posted by Antonio Joao Correia @ 6:04 PM   |
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| 8/Dez/2004 |
| A estrutura do sentimento |
O universo contempla a destruição da lembrança:
Escrevendo sobre matéria, videntes e a esperança
Realiza o sonho, perde inocência, recria palavras perdidas
Entretém a transgressão da consciência solidificada
Com o impalpável da renúncia
Falarás da arte da fecundação, lugar outro que
Escreve sobre a circunstância de existires;
Diz que não vives sem mim e as possibilidades que não sei,
Perde a ruína da sensualidade abstracta, culpa o fim
Destina o espaço, amaldiçoa o adjectivo
Fica imune ao desespero, perde no corpo a tragédia.
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posted by Antonio Joao Correia @ 6:27 PM   |
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| 7/Dez/2004 |
| Todos escrevem sobre Soares |
Em criança gostava de Mário Soares. Em 1975 regressava de Atenas (na TWA?) e num corredor da Portela Jaime Gama apresentou-nos a todos (Gama só conhecia o meu pai mas não se fez tímido, tempo de votos...). Soares tinha uma pasta (perdi os pormenores) e sorria.
Ninguém acreditou na escola primária de Vila do Porto. Apenas uns amigos de Angola perguntavam se ele tinha ar de comunista arrependido.
Anos mais tarde almoçamos(na fotografia do hotel do aeroporto, em Santa Maria, seremos uns dez à mesa e eu não teria mais de onze anos...). Tenho ainda uma outra fotografia em São Lourenço, em casa da Conceição (ele prometeu voltar durante uns meses mas nunca cumpriu...). Adiante. Eu seria mais do Zenha mas sempre gostei da irresponsabilidade das pessoas mais velhas...
Em 1986 terei sido o único aluno que "publicamente votou" Soares na Universidade Católica (aqueles casacos verdes tinham a maioria apesar de algumas mulheres bonitas). O que hoje é banal custou-me ódios de estimação.
Em 1989 (vivia em Toronto) e mudei de opinião por causa dos reiterados insultos ao povo açoriano. Entendi que Soares não percebera o essencial da nação açoriana e geria conceitos de oportunismos. A partir daqui não parei.(...).
Cada ano que passa tenho qualquer coisa contra o pensamento de Soares (irrelevante mas tenho).
Hoje não suporto o homem. Representa para mim o nojo da política portuguesa, o cinismo, a incompetência, um certo grotesco das quadrilhas das influências. A forma como a Fundação Mário Soares se organizou e financiou diz mais sobre a democracia portuguesa que qualquer outro símbolo português. Diz e todos de joelhos.
Mudei de opinião e não me arrependo.
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posted by Antonio Joao Correia @ 6:30 PM   |
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| 5/Dez/2004 |
| Excertos de entrevista a Antero de Quental |
O que é feito de si?
Bem, apenas digo que não é verdade que tenha comprado um andar no Cacém, máquina de bronzear, Fiat Uno e que ande a ler livros do Lobo Antunes. De relevante apenas o facto de ter pedido desculpas ao tolo do António Castilho (dizem-me que agora é fiscal do tribunal de contas). O resto é a vida.
Segue o movimento literário em Portugal?
Sim o Cesariny e o Luiz Pacheco mandam-me recortes dos jornais. O Eusébio, que era do Benfica, também me manda cópias das novidades poéticas.
Mas continua em actividade?
Sim, mas em territórios modernos. Seguindo exemplos de sucesso, penso até gerir uma associação de utilidade pública, género clube de futebol ou uma empresa de construção civil que trabalhe em exclusividade para entidades públicas.
Disse futebol?
Claro. O governo dá-me uns milhões do orçamento (nunca fiscalizado) e eu gasto com casas de alterne, algumas drogas, políticos, despesas de campanhas eleitorais, alimento a pior escumalha que existe na ilha, vou nas procissões católicas, apareço na televisão(também são pagos pela manjedoura), arranjo emprego para as amantes, para os amantes dos amigos, aldrabões, deputados, cornos, chulos, homens de bem, padres, médicos, advogados, engenheiros, arquitectos, empresários, pedintes, funcionários públicos, caixeiros, eu sei lá, sou um gestor moderno, um cavaleiro andante, meto-me nesta trampa toda e tenho resultados, aquilo que se chama sucesso. Talvez regional, mas êxito. Até fui condecorado e tratam-me por excelência.
Não percebo...
Oiça, tentei aquilo que se sabe. Não resultou. Ninguém lê poesia, tenho uma sepultura em cima de um centro comercial (nem o cemitério pouparam), o povo e os políticos brutos e rascas..., eu estava deprimido e pensei: se estes gajos conseguem isto, então eu também sei fazer igual. O próximo passo é a hotelaria com fundos públicos e talvez o negócio dos casinos. Aliás, tenho sociedade com o Camilo Pessanha, António Nobre e o Mário de Sá Carneiro (o Junqueiro disse que sim mas está um pouco doente).
E o que vão fazer?
Olhe, vamos abandonar esta treta da poesia.... de uma vez por todas, e tratar da vida. Da vida ! Falámos bem do governo, os gajos dão dinheiro. Estamos em silêncio, os gajos dão dinheiro. Pagamos algumas coisas, mais dinheiro. Nem temos que passar recibo, ninguém fiscaliza. Eles dão e nós damos uma percentagem para as campanhas: é futebol, turismo, construção civil, consultadorias, publicidade, o raio que os parta. Até pagamos a jornalistas, artistas, homens da cultura, gente de opinião. Uma verdadeira democracia....Não, não é ironia, é apenas aquilo em que a minha terra se tornou.
E a poesia ?
Não sei. Juro que não sei.
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posted by Antonio Joao Correia @ 6:18 PM   |
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| 1/Dez/2004 |
| Lugar mal frequentado |
Um Presidente pacóvio, indeciso e confuso. Um primeiro-ministro mal preparado e simplório. Um parlamento dominado por ratos de esgoto que entendem que a democracia começa e acaba nos partidos.
Uma sociedade civil que não existe (salvo para os hipermercados, favores, futebol e crédito ao consumo).
Sociedade cada vez mais sem cultura, produtividade, economia, honradez, responsabilidade, liberdade.
E a pátria queixa-se do quê? Então não é este o povo que elegerá, em silêncio, canalhas, aldrabões, alcoólatras, manipuladores, ladrões da mesma forma que reza de joelhos a Nossa Senhora de Fátima ou se excita com os políticos na procissão do Senhor Santo Cristo dos Milagres?
Ninguém responsabiliza o povo (talvez mudar...) ?
Terá esta gente o que merece?
Lugar mal frequentado.
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posted by Antonio Joao Correia @ 6:03 PM   |
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