Resistir

"Blog" livre, feito a partir do Oceano Pacífico, por António João Correia, um exilado na América do Norte.

"Resistir" is Antonio Correia's free blog. From the Pacific Ocean...

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29/Nov/2004
Sopa de abóbora com coco
Fomos a um restaurante vietnamita:
Pedi a sopa da abóbora com coco e camarões, pedi uma vez, gostei e agora já não saio,
Nem sabem que sei falar português, nem eu me lembro que não sou daqui
(serei de alguma parte?)
A rapariga pergunta se seremos quatro ou cinco, ela saberá que Nossa Senhora de Fátima fez milagres e os Pastorinhos viram tudo, que José Saramago é nome de sociedade anónima e que Pessoa, sim senhor, o grande Fernando, continua a dar de comer a um milhão de portugueses (nos Açores é o conceito de Autonomia, esmola);
Ela aparente ter ar de quem já não acredita no amor, cura-te,
Deveríamos ter ido a um restaurante português, ressentimentos à parte, mas cheiram mal, juro que cheiram quase todos mal e não gostam que eu perceba que têm sotaque,
E têm sempre nomes como salada de mariscos Abril em Portugal, mousse de chocolate que não é de pacote (até aqui escrevem que não é de pacote, que raio de informação!) e sardinhas assadas (parece que é a comida oficial dos portugueses da diáspora);

A sopa de abóbora não é bem a sopa da minha avó Sofia, mas que anda perto anda. Talvez.
posted by Antonio Joao Correia @ 6:57 PM  
28/Nov/2004
Diário de um tradutor de açorianos (What keeps Mankind alive ?)
Passei o dia a traduzir, para inglês, poemas que não existem:
O primeiro falava de um homem que amava a inutilidades das coisas e
De uma mulher que chorava quando via o mar morrer
Teria uns oito anos quando abandonei em Providence, Rhode Island, uma brilhante carreira de tradutor;
Direi o que vi, se vi o que vi
Traduzia cartas de amor de criadas açorianas que tinham saudades da exploração dos donos dos palácios de São Miguel, da fome, da miséria, eles eram tão bons para os pobrezinhos, Nosso Senhor lá saberá a violação dos inocentes, graças a Deus era limpa e asseada e a América acabava na porta do primeiro bordel de Fall River
Anos mais tarde, com subsídios e caciques até fizemos uma procissão para políticos e aleijados que rezam ao Espírito Santo, que Nosso Senhor castiga e eles até mandam

Construir convicções se podemos rezar de joelhos? Ou pedir?

Na escala social os açorianos especializaram-se em serem explorados pelo primeiro chicote que lhes aparecesse à frente, sem revolta, em sossego muito antes dos livros de cheques comprarem a consciência da liberdade, por minha honra traduzo estas frases que não podem ser verdade

Oiço Alabama Song de Kurt Weill e Bertolt Brecht está a mungir uma vaca

A mulher via o mar morrer e não queria saber da liberdade, tinha caixas de comida, polyester, sapatos de verniz com meias de renda, dentes cariados e um Deus preparado para
A fecundar

e empurrar de um vão de escada

Traduzo poemas que não existem.
posted by Antonio Joao Correia @ 5:17 PM  
27/Nov/2004
Vítimas da poesia uni-vos!
Hoje serei perfeito, como o mundo exige:
Saltarei da convenção e refiltrarei o adjectivo
A sedução deixa-me liberto da possibilidade
Por aí
Arrepia-me a generosidade, o orgulho da matéria
Não acredito em nada, sabem
Sem leitores, ela ajoelhou-se no meu corpo

Absorveu o sentido do amor, este

Sem ninguém, acreditas que me lês sem
Saberes por onde andei?
Vejo o mar de São Lourenço, dez mortos da guerra
Piratas em crise existencial
Fui Sandokan em Vila do Porto, amante em Estocolmo
Estudante dos corpos em Lisboa
Pintor de quadros duvidosos em Paris, saltimbanco
No Rio de Janeiro (agora estarei no Pacífico)
E duvidas do meu poema?
Que poderei mais fazer?
Hoje serei perfeito, completo como o mundo exige
Uma vez perseguiram-me por razões políticas e nem me lembrei de
Explicar às bestas ignorantes, da porcaria, que a poesia liberta
Vítimas da poesia uni-vos!
Escrevo sempre: profissão poeta
(ninguém se comove)
Nem sabes que fiz tudo por amor sem saber de ti
O sentido do amor, não consigo
Nem me chames tristes, se viverei
Arrepia-me a generosidade, o orgulho da matéria
Não acredito em nada, ela ajoelhou-se no meu corpo
Absorveu a eternidade da minha convulsão
Sem leitores
A sedução deixa-me liberto da possibilidade
Uni-vos!
posted by Antonio Joao Correia @ 6:34 PM  
Bidé da física quântica
Não sei se o tempo fez de mim o resto
Ou se a destruição da matéria impeliu o cínico:

Estamos deitados, biologicamente, e Deus é um bidé da física quântica
Pode-se dizer bidé em poesia, se isto ou aquilo fosse poesia seria possível,
Deus é um bidé da física quântica, Deus é um bidé da física quântica
Deus é um bidé da física quântica, Deus é um bidé da física quântica:

Dois passageiros de rituais absurdos e escrevo felicidade;

Veremos: interessa-me o sexo, a literatura e talvez o conceito de culpa com
A perplexidade da memória quando fecundada pela hesitação.

Gostaria de escrever sobre qualquer coisa sem sedução; nada de ondas ou partículas

Fui eu

Aquelas mulheres, para quem eu olho, terão a vida alterada só por eu para elas ter olhado
As que eu amei talvez

Deus é um bidé da física quântica

Interessa-me ainda interceptar um certo ritmo poético, ver as montanhas com neve
Todos os dias, como hoje, o meu Benfica, o hóquei no gelo, milhões de clientes felizes, os argumentos de nada, os meus filhos são mais bonitos que os filhos dos outros, sou alto e Sofia, minha querida avó dizia que estava muito acima da média, Deus é um bidé da física quântica, herdei fortuna de um avô rico, gastei outra com mulheres ardentes em Miami e até li poesia no México: um herói da modernidade modesta

Não gosto de perceber que serei mais poeta do que digo, mas se o tempo fez de mim o resto, ou até se a destruição da matéria impeliu o cínico, que ficará, que ficará para contar?

Deus é um bidé da física quântica, Deus é um bidé da física quântica


posted by Antonio Joao Correia @ 3:31 PM  
22/Nov/2004
Sobre o café Mascote
Falarei das vozes que vi uma vez num cemitério:
Em Santa Maria os mortos ficavam na Senhora da Rosa, os poetas por aí e os políticos no café Mascote do senhor Moura, sim senhor que eu vi
Cai uma, cai outra não maldizeis as rosas, elas não caem mortas, caem de sono dizia o poeta padre Lopes no café Mascote, quando ainda havia padre Lopes e café Mascote, ao lado do meu avô António, quando ainda havia António, e do Mário Fernandes, quando ainda havia Mário Fernandes e do Raposo Marques quando ainda havia Raposo Marques e da Conceição.
Política sim senhor, uns socialistas no meio do mundo mais cultos que os socialistas que acabariam muitos anos depois por ganhar eleições, mas sabe-se que a cultura não se pode definir, outros do antigo regime, e ainda tanta gente que passava por Vila do Porto fugindo de qualquer coisa (nunca era bem um destino).

Passaria ao lado deste tempo, ia por causa de uma laranjada e de um bolo chamado rolo suíço que estava em moda açoriana(depois veio o Molotov e as coisas com natas) e ficava sentado, sonhado que quando crescesse seria o poeta das mulheres perdidas e o sedutor dos corações abandonados.

Tenho dito que as personagens dos livros que não escrevo passam a vida a descer a Rua Luís Bettencourt e Teófilo Braga em Vila do Porto mas esqueço-me que param, por vezes, no café Mascote.

Agora nem sei para onde vão.

posted by Antonio Joao Correia @ 6:18 PM  
20/Nov/2004
Moderno (elogio de um certo egoísmo)?
Este museu também é meu e da minha vida. Aqui amei, aqui procurei decidir mais qualquer coisa sobre onde estou e quem sou.

Gostava de uma espécie de labirintos, dos espaços das obras não tão modernas em busca de uma aflição sobre a certeza da arte.

Museu?

Não sei se gosto desta fama mas confesso que me custa aceitar o conceito ou modelo de “ bento box” japonesa que um crítico do NYTimes lhe chamou...Espaços com demasiado sentido podem atormentar aquilo que se espera da modernidade. Mas, o que é de facto o conceito de modernidade?

A arte para as massas de turistas? «Fast food» em versão museológica? Objectos do dia? Aquilo? Isto? Tu, leitora?

Apaixono-me pelos museus da vida e talvez imagine que estou a ver eternamente o sentido da mesma.
posted by Antonio Joao Correia @ 8:52 PM  
18/Nov/2004
Kinsey ou a moral e os bons costumes
Portugal e muitos portugueses, os meus Açores e muitos açorianos, designadamente daqueles que gostam da moral e bons costumes do poder político que engana o povo têm sérios problemas sexuais. Pois.

Deveria ser obrigatório verem este filme (não sei se o irão perceber, mas existe sempre esperança...). Enfim...

Kinsey
é um filme brilhante com um argumento extraordinário, genial.
posted by Antonio Joao Correia @ 6:43 PM  
17/Nov/2004
Alegado poema para a Maria
Veremos: se fizer um poema não será do acaso
Sem rima até poderia tentar um soneto mas não
São sete da manhã, vi que hoje escrevo em português
Nada está e eu serei por
Ler-te todos os dias, acorda António
Estarás longe dos sobressaltos do óbvio;
Ela não existe

Restam leitores imaginários destes corpos
Do fim das palavras do desejo
É do desejo que deveria escrever, deste
Nada está e eu serei por
Esperar


Tentarei outra vez: um poema, o desejo
Matéria dissolúvel, explicação daquilo que sabemos amar.
posted by Antonio Joao Correia @ 7:33 AM  
16/Nov/2004
Sinais dos tempos?
Como "atravesso" a fronteira entre os EUA e o Canada quase todas as semanas ando a pensar aderir a uma versão local da via verde em aeroportos...Para identificação apenas é necessário a minha íris e a porta abre-se...Escandalosamente o sistema funciona, é seguro, rápido e não me assusta...
posted by Antonio Joao Correia @ 6:12 PM  
15/Nov/2004
Errado e nu
A credibilidade do Estado português no estrangeiro é reduzida. Portugal é visto como um pequeno país periférico, atrasado, inculto, com milhões de habitantes analfabetos funcionais, sem ciência ou progresso, mas sempre pronto para um pequeno golpe de oportunismo.

É a pátria do que poderia ser, do que foi mas nunca daquilo que é.

Sem um sistema fiscal digno do nome, com uma justiça aberrante, sistema de saúde que funciona apenas para ricos, economia sem produtividade, com um máquina estadual permanentemente a saque pelo partido do momento, é notável reparar como o povo transpira felicidade e é capaz de eleger ou reeleger democraticamente, em simplicidade e consciência, o primeiro trapaceiro que lhe apareça à frente.

A ninguém são exigidas responsabilidades. A ninguém. Apenas varia o grau do escândalo, cinismo ou da hipocrisia com que se aprende a viver com o fenómeno.

Portugal está errado. Vai nu.
posted by Antonio Joao Correia @ 6:33 PM  
14/Nov/2004
O domínio do romance abstracto (conto)
Apetece-me ir à missa portuguesa. Como não crente tenho de me sujeitar ao pecado para ouvir falar português nesta parte do mundo.

Deixem-me ser mais claro: fui a uma missa católica e romana por estar com saudades de ouvir falar português. Como tenho feições alegremente açorianas deixaram-me entrar (a mulher da porta estava vestida de religiosa para disfarçar qualquer coisa).

Gosto de ver os crentes, é verdade, quase todos velhos, vestidos de preto, a rezarem por Deus num espectáculo miserável em que eu me comovo («se tivesse a fé desta gente andava de porta em porta a vender bíblias», gosto de dizer). As mulheres não são bonitas e têm um cheiro a laca que lhes fixará o cabelo e as virtudes. Têm roupas horríveis e sapatos estranhos. Os homens estão embrutecidos e não aparentam cara de bons amigos. Feios, porcos e maus mas com bom coração, poderia dizer a legenda à entrada desta igreja açoriana no fim do mundo.

Sabem a rotina toda. Levantam-se, sentam-se, falam com o Senhor de forma automática, coçam-se ao mesmo tempo, olham para os estranhos com insipiência. Gostam de anéis e ouro.

Sempre associei estas igrejas a caminhos de sedução, não de Deus, mas das mulheres que esperariam por algum milagre sexual. A carga erótica é fortíssima e não será da laca mal cheirosa nem Deus; talvez seja da rapariga com sapatos pretos de verniz, meias brancas que já terá sido bonita.

Foi fácil encontrar esta igreja. Dois anjos vestidos de veludo e com um chicote apontavam o caminho, dois políticos açorianos meios nus beijavam-se à porta enquanto distribuíam subsídios, sete malabaristas atiravam anões ao ar (como vi uma vez num bar em Braga), catorze virgens apelavam aos pastorinhos, quarenta doentes carregavam com a imagem do Senhor Santo Cristo cheia de diamantes, nove pobres obedeciam às ordens de um capataz e até o próprio Godart fazia de polícia sinaleiro. «Pelo passeio não», gritava o bom Jean Luc enquanto desciam os panos para o segundo acto.

Nada mais aconteceu. Ouvi a língua portuguesa, eles continuaram na missa, felizes e eu vim para casa e escrevi.

Deveria ser um romance, mas nada mais aconteceu.

posted by Antonio Joao Correia @ 8:50 AM  
13/Nov/2004
O erro de Diogo de Silves
Assumirei que gosto dos labirintos de Borges por não serem óbvios. Existe sempre um espaço para o leitor se perder dentro de um caminho que é ele próprio a concepção da escolha.

Existe um momento indizível antes da escolha. Uma espera de milésimos de segundo ou a eternidade em condensação do puro sacrifício. Saberemos que irá mudar quase tudo, mas ainda assim assumimos o rumo.

Acredito que Borges não tenha relações próximas com Diogo de Silves, autor exagerado da minha terra talvez no ano de 1427.

Seja no amor – que é o que interessa – ou na construção do itinerário de um povo livre, mais livre de si próprio, é penoso ver uma nação cada vez mais ignorante, mais rude, grosseira ir em busca de nada só por não desejar assumir as suas próprias responsabilidades.

Estão errados e sabem que estão errados. Estão atrasados e sabem. São imorais e recebem o apoio popular por causa da imoralidade. Apelam ao silêncio dos verdadeiros. Copiam o seu próprio destino com o propósito de serem todos iguais.

posted by Antonio Joao Correia @ 7:30 AM  
Contributos para a existência de Deus
Para alguns é um exercício de turistas para importunar os locais. Dizem que está falsamente fechado ou que é preciso esperar umas semanas por uma mesa. Para outros é o melhor restaurante da América ou talvez do mundo Ocidental...

posted by Antonio Joao Correia @ 7:09 AM  
11/Nov/2004
Não havia jardins nem livrarias na melhor terra do mundo
Descobri uma espécie de livraria. Uma secção dedicada a Conrad, caixotes de Norman Mailer, uma meia estante com Borges, Faulkner pelo chão e lá fiquei umas horas a perceber o mundo que eu vejo do céu. Até telefonei à Raquel para informar – em glória – que vi Mishima numa estante que dizia clássicos...

Existe qualquer coisa nestes diários da vida, entre a tristeza dos dias de amar e a solidão dos leitores desesperados.

Falaremos da sofisticação do leitor a partir de um processo de escuridão, um labirinto segundo Borges, e vejo-me na partida da vida eterna numa narrativa ao melhor estilo de Cervantes, pai desta gente toda.

Gosto de ver leitores em solidão quase como que potenciais agitadores naqueles momentos de incerteza.

A rapariga da caixa tem uma pele demasiado branca. Saberá seduzir mas desconhecerá o caminho mítico de Vila do Porto. Gostaria de lhe explicar os jardins de Santa Maria mas não havia jardins em Santa Maria, ou pelo menos, jardins como se imagina que os jardins fossem. Nem livrarias, a não ser uma breve montra na papelaria Ricardo, entre a revista sobre os bordados da mulher moderna e a Crónica Feminina.

Hoje não sei, nem quero saber.


posted by Antonio Joao Correia @ 6:08 PM  
Oiço Led-Zeppelin


Hoje, a minha casa acordou com nevoeiro. Já restam poucas folhas nas árvores.

Oiço Led-Zeppelin, é feriado, ninguém me telefonou do escritório, irei ao meu sushi.

Não preciso de muito. Led-Zeppelin ?

posted by Antonio Joao Correia @ 6:31 AM  
10/Nov/2004
Quantas ?
Quantas pessoas matou Arafat ?
posted by Antonio Joao Correia @ 7:46 PM  
Mar ?
Gosto de ver aquele mar sem ninguém. Antigamente o mar não tinha pessoas e eu era visto em Santa Maria. O mar – este mar também – lembra-me quase tudo.

O meu avô ia quase sempre comigo.

As mulheres bonitas apaixonavam-se com facilidade pelo meu avô António. Eram quase todas exageradas nas ofertas de amor eterno e ele dizia que era algo que não percebia mas não aprendera a rejeitar.
posted by Antonio Joao Correia @ 6:45 PM  
9/Nov/2004
E se te calasses, António? (linguagem pouco correcta, apenas para adultos)
Eu e o Lobo Antunes somos amigos. Até nos cumprimentamos uma vez no aeroporto de Orly, gostamos de bordéis, dos livros do Cardoso Pires (meu amigo de Lisboa), somos ambos timidamente vaidosos e eu até leio os livros, seja ao estilo fábrica da minha antiga amante Agustina, seja com fome dos ritmos poéticos nesta língua.

Ele é Camilo, o Saramago faz de Eça e eu aparento ser um obscuro leitor que vive na América em exílio da merda de pátria em que nasci (pátria com excesso de paneleiros assexuados com poder político, literatura de caixão seboso, ladrões com sucesso eleitoral, homens de negócio que cheiram mal, canalhas condecorados, etc.).

Ou ele é Eça e o Saramago é Camilo mas isto não interessa. Conviria chamar também o Luiz Pacheco e um Arcebispo de Braga em versão açoriana não censurada. Bem, adiante.

Como ele é famoso na América profunda (famoso nas revistas de literatura mas famoso) não passa um mês em que não tenha de falar sobre a sua genialidade. Muito bem. É verdade, ele é genial, excelente escritor e não deve nada a ninguém, (ninguém sabe isto o que é, mas sabe-se que o João de Melo e o Fernando Namora são o que são e a gente não acredita em Nosso Senhor quando vê as putas trabalharem por votos em frente e na procissão do Santo Cristo, pois não?). Mas, já enjoa tanta promoção, publicidade, vulgarização. Cala-te, pareces a Júlia Roberts antes de engravidar. Eu compro-te um contentor de livros. Até compro o disco com o Vitorino, mas cala-te por amor de Deus ! Cala-te !

Dizes que o Gabriel com as suas putas tristes até poderia estar em sabonetes e que tu és melhor e que a pátria dos gajos que acima descrevi não gosta de ti por seres genial. É verdade mas eu não tenho culpa.

Cala-te, escreve.
posted by Antonio Joao Correia @ 6:04 PM  
8/Nov/2004
O sonho americano


Gosto destes meus lugares. Perdi-me por aqui e ninguém deseja saber a verdade dos caminhos que aqui me levaram.

Ao fundo poderia estar aquela mulher que me viu ontem a recitar poemas perdidos.

A poesia serve para quase tudo.

posted by Antonio Joao Correia @ 7:58 PM  
Não pode ser turista

A primeira vez que aqui vim, nos anos setenta, existiam várias coisas diferentes: eu era criança e vivia em Vila do Porto, o edifício albergava vários bordéis, havia uma sensação de desconforto em forma de sedução nesta cidade, os russos eram comunistas, Nixon ainda era Presidente. Ao longo dos anos as coisas foram mudando neste quarteirão.

Agora ficou o mau gosto moderno e turistas. O sucesso.

É óbvio que eu não sou turista.

Havia ainda um alfarrabista da Jamaica que tinha traduções rascas de Camões. Quem sabe disto não poder ser turista, não pode.
posted by Antonio Joao Correia @ 7:09 PM  
Deus na América (Times Square)


Falam de Deus. Espero.

posted by Antonio Joao Correia @ 7:45 AM  
Deus na América (NYC)


Falam do Senhor. Falam de um Deus vingativo.

posted by Antonio Joao Correia @ 7:45 AM  
Deus na América (NYC)


Não quero ser salvo por Este Deus. Posso escolher ?

posted by Antonio Joao Correia @ 7:44 AM  
6/Nov/2004
Chove

Quando chove o passeio ao pé da porta da minha casa fica assim.

posted by Antonio Joao Correia @ 6:28 PM  
Outono no meu jardim

Estas árvores protegem-me da vista das montanhas. Cresceram muito nos últimos tempos. Não sei o que pensarão os corvos que aqui não se deixam fotografar.

posted by Antonio Joao Correia @ 6:21 PM  
Da janela do meu quarto


posted by Antonio Joao Correia @ 6:19 PM  
4/Nov/2004
Não é bem a pátria
Tenho um dilema com esta língua. Não é a minha pátria (a minha é uma ilha perdida de memórias) mas também não é um hábito exótico de falar uma coisa inútil no mundo onde decidi ser feliz.

Não sei. O ressentimento (alma da poesia livre) que por vezes tenho com as miséria e injustiça portuguesas não será a melhor explicação.

Hoje ao jantar – cabrito à moda de Santa Maria – reparei que já ninguém fala português, como primeira escolha, em minha casa. Nem eu. Falamos inglês com sotaque canadiano ou inglês com falso sotaque da Califórnia. Até a minha filha já fala melhor espanhol do que português. E eu estou bem. Sem vontade de mudar.

Em poucos anos tornei-me um refugiado desta língua. Serei outro certamente mas ainda assim tenho um pavor de um dia acordar e perceber que abandonei para sempre a fala supérflua, tonta, mas a língua em que eu vi os poemas de toda a eternidade.


posted by Antonio Joao Correia @ 5:29 PM  
3/Nov/2004
Elogio de Beckett
Vejo Portugal: "on the road to a slap-up psychosis".

Será a "poetic justice" ?
posted by Antonio Joao Correia @ 6:10 PM  
Notícias da América
Não consta que exista uma revolução...

O povo americano quis Bush, o resto é o mundo a dar mais importância do que a própria América. Kerry perdeu. Nader – um príncipe – deu entrevistas notáveis e eu vou...trabalhar.

A América profunda não paralisa por causa de algum mau perder (dizem que o dono dos «Red Sox» tinha um avião preparado com dezenas de advogados, apenas à espera de saber qual o Estado para ser atacado...)

O americano médio gosta de Bush. Não é sofisticado, não será muito inteligente mas é claro e protege os seus. Kerry é preferido pelas elites e pelo povo que gostaria de ser europeu na América das cidades. Kerry não é claro, mudou de posição sobre quase tudo e é um exemplo do político profissional que poderia ter sido outra coisa. Bush é aquilo mas sabe-se que é aquilo.

As mudanças na América raramente chegam da política. É na cultura que a América poderá fazer a diferença. E, claro, a cultura na América não precisa da política para nada...
posted by Antonio Joao Correia @ 7:24 AM  
1/Nov/2004
Hoje é terça-feira.
A América vota, como as democracias, num dia de semana. Trabalha-se no dia em que se vota. Não existe a patetice castradora, intrujona e hipócrita do dia de reflexão, da cerimónia de se votar em jeito de sacristia bolorenta num Domingo, no dia de descanso. O respeito por quem trabalha passa por aqui.

Espero que Kerry ganhe.

Gostaria que Nader tivesse muitos votos (Nader é o político que eu gostaria de ser se fosse político...) mas o mundo não irá acabar se Bush vencer.

Não consta que saibam de poesia.


posted by Antonio Joao Correia @ 7:04 PM  
Sobre Melo Antunes
Não li o livro/entrevista(já está pedido, mas isto de viver longe não tem só benefícios...) mas espero que seja altura de se fazer alguma justiça. Melo Antunes pertencia a uma espécie muito rara na vida pública portuguesa: a daqueles que acreditam que não é o negócio ou o oportunismo que motivam as melhores convicções humanas. Através do seu amigo António Lobo Antunes é também possível perceber o que é a coragem em combate de um homem de paz.

Abandonado por quase todos - era sério - tinha uma ideia de Portugal, de esquerda democrática para melhorar um país atrasado, invejoso, arrogante na mediocridade. Não foi comprado nem tentou comprar ninguém.

Como ele, como o ignorado Salgueiro Maia provavelmente poderá dizer-se que nasceram em pátria que os não merecia.

Vi Melo Antunes uma ou duas vezes nas Furnas, em São Miguel, a passear. Recordo-me de ter dito a alguém: ali vai um homem decente que foi humilhado pela vulgaridade dos nossos políticos que ganham eleições.

posted by Antonio Joao Correia @ 6:22 PM  
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