| Resistir |
"Blog" livre, feito a partir do Oceano Pacífico, por António João Correia, um exilado na América do Norte. "Resistir" is Antonio Correia's free blog. From the Pacific Ocean... |
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| 30/Set/2004 |
| Um debate na América |
Vi o primeiro debate.
Gostei de Kerry mas o discurso soou a ensaio e já enjoa tanto Vietname. Bush teve algum sentido de humor, especialmente quando tratou Vladimir com afecto. O resto foram banalidades melancólicas.
Imagino a cara perdida dos terroristas a verem, via Fox ou CNN, o debate. Terão reparado na gravata de Bush (estilo classe trabalhadora) ou na de Kerry (menino rico da Nova Inglaterra...). Pior, terão visto alguma diferença entre uma esquerda suave e uma direita violentamente cristã ?
E os soldados ? E os homens de Wall St ? E o meus amigos de Queens ? A América profunda ? Saberão do debate ?
A democracia da América tem pormenores deliciosos.
Por outras palavras:o meu candidato era Dean, agora assisto...
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posted by Antonio Joao Correia @ 7:46 PM   |
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| 29/Set/2004 |
| Genética e vulcões |
Semana estranha; depois de andar a ver carros, dei por mim a recuperar a carga genética da pátria: fui visto a ver fatos-de-treino e só faltou ir a um hipermercado com um livro do Paulo Coelho debaixo do braço. Pior do que «isto» seria vestir a meia branca oficial dos governos de Portugal e regiões ditas autónomas. Serão saudades?
Telefonam-me às seis da manhã(em Portugal nunca se lembram que vivo um dia antes) para informarem que tenho um vulcão em actividade perto de casa. Um vulcão e eu não sei. Repito, parece que vai rebentar um vulcão verdadeiro com lava, etc.
Lá explico e digo que vivo a uma hora ou mais de viagem do vulcão.
Para quem nasceu em vulcões abandonados não será a especulação que assustará.
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posted by Antonio Joao Correia @ 6:06 PM   |
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| 27/Set/2004 |
| Compro carro ? |
Sei pouco sobre carros. Como vivo na América profunda tenho um carro alemão(VW), alegadamente descapotável, que precisa de reforma. Ter um descapotável em terra que neva..., bem, não vamos falar neste assunto. O pior é que lhe ganhei afecto nos últimos dois anos. Não terei coragem, mas já não aguento a capota para cima e para baixo...
Reconheço que os vendedores de carros estão em pânico: faço perguntas estranhas, insensíveis, resultado de uma ignorância assustadora. Falam-me em rotações e penso em Kant. Não percebo nada e pergunto, pergunto. Até o regime jurídico de um Ford Mustang.
É sempre assim. Uma vez, em Ponta Delgada, enganaram-me numas jantes de liga leve. Até hoje ainda não percebi o que é uma liga leve (existirá uma liga pesada?). Agora são os airbags laterais ou o sistema de navegação que dá filmes enquanto me perco!!! Alguém precisa de ver filmes enquanto conduz ? Filmes ? Estou a falar de filmes e internet no carro. Também vi uma coisa com mini - frigorífico.
Pior, nem sei que carro quero ou preciso. Ontem fui ver carros japoneses. Fui ver a moda que é uma coisa dita híbrida, metade a gasolina, metade a electricidade. O carro é notável, nada caro mas é feio. Amanhã vou à G.M. do meu bairro...
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posted by Antonio Joao Correia @ 6:26 PM   |
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| 26/Set/2004 |
| Sem nada ou a democracia |
Financiamento e ou lavagens financeiras das campanhas políticas na minha terra, i.e., quem paga a "democracia":
- Empreiteiros
- Banqueiros
- Clube de futebol
- Outras empresas que não se sabe muito bem
- Pagamento de favores
- Lavagens
Não falo da América de Bush mas da Região Autónoma dos Açores. Obviamente irrelevante.
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posted by Antonio Joao Correia @ 6:41 AM   |
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| 25/Set/2004 |
| O poeta |
Serei ainda do tempo do amor.
Olho e vejo uma matéria solucionar.
Sedimento estreito por entre a desilusão:
Escrevo sobre a matéria do amor; se soubesse, diria que
Vejo uns poetas ao longe, diria, se visse, também
Escrevo por não saber fazer mais nada; tentei ser pintor, amor
Acabei aqui, a perceber que não sei, não sei
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posted by Antonio Joao Correia @ 6:03 PM   |
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| 23/Set/2004 |
| Óbvio |
Não sei.
Não sei se existem escritores portugueses. Provavelmente não, mas a irrelevância do disparate da frase não fica por aqui: faltam de certeza leitores, leitores que saibam chorar na lei do desejo.
Vamos lá ver, leitores que saibam amar, obviamente.
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posted by Antonio Joao Correia @ 6:18 PM   |
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| 20/Set/2004 |
| Poeta |
Da minha janela vejo, todos os dias, o Oceano Pacífico. Para quem nasceu no Atlântico já nada faltará, até a memória se enquadra.
Existirá a poesia. Ninguém nos tira a poesia da língua. Falarei português em sinal de resistência. Ninguém fala português onde vivo (ainda bem).
Talvez ande a trabalhar demais, muitas horas. Deveria ser poeta a tempo inteiro, navegador das possibilidades.
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posted by Antonio Joao Correia @ 6:01 PM   |
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| O costume |
Não quero ler notícias de Portugal. Paciência. O mundo não acaba.
Vou ao meu quintal açoriano, a minha aldeia, e vejo que a luta política retoma o estilo em que nada irá mudar em Outubro. De cacique em cacique, vozes dos donos, nada haverá para comentar. Povo sofrido em que muitos não têm ainda o grau cultural para decidir em função das gerações futuras, do bem comum. Contas de merceeiro, a curto prazo, enchem, com sentimento e boa vontade, os bolsos através de empreiteiros, pato-bravos e intermediários entre quem faz política e quem paga. Não distingo forças políticas, nada as distingue. O sistema criminal ignora. Temos um silêncio obsceno. O costume.
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posted by Antonio Joao Correia @ 5:12 PM   |
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| 18/Set/2004 |
| Caixas verdes |
Ontem fomos comprar bifes de atum. O que é uma banalidade em certos lugares, na América profunda tem um certo cheiro a aventura, investigação. O melhor atum está nas lojas japonesas e vem quase sempre do Hawaii (ou Havai...). Desta vez encontramos Albacora, postas perfeitas, numa loja de agricultura(?) biológica. Depois foi o azeite grego e umas azeitonas pretas alegadamente da Calábria...
Falta a pimenta açoriana. Nem sei quantos quilómetros para encontrar uma loja portuguesa, como habitualmente com mau aspecto e um certo cheiro a desespero, algures entre Nossa Senhora e o Espírito Santo da sexualidade afrontada. Mas tinham pimenta açoriana o que salvará o tempero.
Falo português com a rapariga da caixa, e ela grita:
- «Papá, tá aqui one ume that speak portuguesa».
- «Deixa que ê ju vu, hello, hello»
O homem lá chorou a vida e fiquei com a impressão que para além da pimenta também tentou vender a filha. Lá se arranjou um compromisso: fiquei com uma caixa de pastéis de nata e dois frascos de pimenta. Ausente de São Miguel desde 1956 nem saberá que o mundo já acabou.
Não sei o que é pior nestes aventureiros que se perderam na América profunda: se a ânsia de serem felizes, se a revolta em torno do desejo de se deteriorarem. Gostaria de falar sobre a perdição do poema mas esgotam-se, com tristeza, os adjectivos.
Seria qualquer um de nós ali, não seria ninguém. A loja também vendia uns novelos de lã portuguesa. O que raio é a lã portuguesa e o que faz ali, no fim do mundo, numas caixas verdes ?
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posted by Antonio Joao Correia @ 8:18 AM   |
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| 17/Set/2004 |
| Portuguese do it better |
Só no terceiro-mundo a abertura de um ano escolar é notícia, contra notícia, tema do parlamento, desgraça e humilhação nacional.
Portugal tem um sistema público de educação quase jacobino, baseado nos direitos dos professores dos partidos, não dos alunos ou das famílias.
Sistema cruel e injusto pois quem pode resolve o problema através do ensino privado, quase sempre de melhor qualidade nas cidades.
Portugal gasta demasiado em professores e na administração de um sistema público de ensino com um modelo esgotado, que consome milhões e milhões. Modelo corporativo que serve sindicatos oportunistas e clientelas de partidos; modelo que também não serve os professores.
Como habitualmente, e como o acesso ao poder depende também destes funcionários públicos, não existe coragem para mudar o quer que seja.
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posted by Antonio Joao Correia @ 6:04 PM   |
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| 15/Set/2004 |
| Dramas da fé e um bife decente |
Os meus vizinhos monges, diga-se monges budistas, têm medo do meu cão, por acaso uma cadela que nasceu no Montana. Nos exercícios da manhã, neste meu jardim público, olham desconfiados e ela apenas corre em busca de uma falsa liberdade.
Estes monges têm sentido de humor (a loja para turistas que abriram é disso um exemplo) mas.... Outro dia falaram comigo e quase me convenciam a ser vegetariano.
( falei-lhes nos bifes do Morton’s e eles olharam com espanto e vergonha; sei que fui infeliz e insensível).
Lembrei-me, sem razão, que nunca mais vi Testemunhas de Jeová de porta em porta (deve ser extraordinário andar de porta em porta).
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posted by Antonio Joao Correia @ 6:03 PM   |
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| 14/Set/2004 |
| Fernando sabe mas não diz ? |
Porque é que os bancos têm o privilégio de só pagar 13 por cento de imposto sobre os lucros?
Razões imaginárias:
- Pagam as campanhas dos partidos políticos. Veja-se o caso açoriano que até pagam ou pagaram o futebol como medida de pagamento de favor ( isto é, crédito mais facilitado, desde que os impostos sejam lucro para a banca...);
- Ninguém reclama ?
- O povo é tolo ?
- Pátria de gente mal preparada ?
- Opus Dei ?
- Maçonaria ?
- Oposição «soft» ?
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posted by Antonio Joao Correia @ 6:33 PM   |
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| Sinais de Deus e o povo que também somos (o esplendor) |
Dois operários portugueses – a maioria da primeira geração na América do Norte – com sotaque micaelense sentam-se ao meu lado no «subway». Mais velhos do que eu, talvez quarenta anos, estão mal vestidos, cansados e parecem resignados por mais um dia de trabalho duro, sem ilusão.
Olham para mim; talvez por causa da gravata ignoram-me e não dão conta que têm um irmão ao lado, que ouve e fala uma «coisa exótica» que se chama português açoriano...
Falam de qualquer coisa. De amores perdidos, de uma festa em que o padre tinha uma amante, de uma «boss» que tem as mamas grandes e é perdida por homens das ilhas.
Mudam de assunto de forma rápida. Algum futebol. Falam depois de uma outra mulher que já não anda com quem não sei quem. De um outro homem que só tem dívidas, de um carro que não presta, de uma casa que não é muito grande. Falam angustiados. Dizem qualquer coisa sobre carne assada com vinho tinto.
Não saberão muito de Portugal. Mas geneticamente são Portugal.
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posted by Antonio Joao Correia @ 6:04 PM   |
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| 12/Set/2004 |
| Mistérios e coincidências |
Já o escrevi e disse, Dogville de Lars Von Trier foi inspirado na prática do governo da minha terra açoriana (que se prepara para ganhar, com facilidade, as eleições de 2004). Duvido que ele saiba onde ficam os Açores, nem sei se a famosa Nicole Kidman já terá visto um mapa alegadamente português, mas que foi, foi. Está lá tudo.
Revi o filme em casa. Gostei ainda mais de Lauren Bacall. Blair Brown parece que saiu de uma convenção de ajuda aos pobres de estimação de São Miguel. Paul Bettany é vergonhosamente brilhante na cobardia palaciana. Sioban Hogan lembra-me, em pano de fundo, aquelas pessoas que vão aos jantares partidários da aldeia para serem vistas pelo chefe, pela boa moral...
Mas é a história e a forma genial que lembra os Açores. Certamente que seremos muito mais, mas que aquela gente domina neste tempo, domina.
Dogville é também um filme sobre a falsa política que triunfa e os outros em silêncio. Os outros. A falsa solidariedade, a ajuda para ser paga com juros de subserviência, o despotismo. Tudo, para além desta condição humana.
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posted by Antonio Joao Correia @ 7:17 AM   |
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| 11/Set/2004 |
| A estrutura de uma nação |
A maçonaria portuguesa, que é pacóvia, utiliza um templo católico para uma provocação através de um enterro. O Cardeal, que é um excelente gestor, amua e responde tentando interferir na patética intervenção de um Presidente mais ou menos inseguro, ridiculamente titubeante.
A maçonaria manda nesta parte de Portugal. Existe, aliás, como que um acordo tácito entre o Portugal católico atrasado e o Portugal atávico da maçonaria para que a estrutura da nação não se altere.
Nos mundos judicial e judiciário, por exemplo, é impossível fazer carreira sem aderir a um dos lados. Mas não se percebe o que são.
Nada de mal existe com a maçonaria ou com as facções católicas deste mundo, mas estas " made in Portugal " não são empenhadas na tal harmonia ou paz. Por outras palavras: não se definem em função do bem comum da sociedade.
Os processos «de televisão» da “ Moderna” e “ Casa Pia” são, sem ilusões, reflexos de ansiedade de um combate implícito. A questão, no entanto, será mais alegórica: não se trata só da maçonaria ou de ramos católicos com poder, mas uma forma peculiar – lusitana – das nossas melhores “máfias” controlarem uma certa ideia de manutenção das prerrogativas. Como que se projecta uma equação matemática de afrontamento, de demonstração das armas através do controle.
Não é por acaso que Portugal é um país de gente pouco culta e mal educada. É assim que se promove uma geração de servos obedientes, de cidadãos que não pensam, “ yes man” com medo, servidores, mancebos ajoelhados na injustiça social como forma de vida. Se é o vizinho que é violentado...
Voltamos, sem esforço pois, ao território da tradição portuguesa do serviço público como favor ou roubalheira para premiar o pagamento político, a fidelidade religiosa ou o comprometimento em troca do negócio.
A estrutura da nação não mudou.
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posted by Antonio Joao Correia @ 6:07 PM   |
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| 10/Set/2004 |
| Resistir * |
Não acredito em Deus e tenho que viver com os homens deste mundo que não sabem que é no amor que reside a esperança (a guerra é também a marca da fragilidade do ser).
Não acredito em Deus e, em contradição, só me apetece escrever sobre fé, a eventual inutilidade da matéria, o sonho da liberdade, igualdade e fraternidade.
Desejo, no entanto, acreditar em Deus para imaginar que o mundo não é o que parece, hoje, nas televisões que não param de contar histórias de terror humano.
A democracia e a vontade de se criar um mundo melhor - quase perfeito - não é vontade do acaso ou do negócio capitalista, mas obra da determinação de uma sociedade livre e aberta que aprendeu, através da natureza humana, a resistir contra o fatalismo da guerra e fome ( e irá sobreviver, ainda que pagando o preço da estupidez humana).
E, será razoável acreditar que muitos de nós aceitamos que a democracia não se pode negociar (ceder aqui é perder a razão).
Não acredito nos que dizem que o mundo não passa de uma desastrada bestialidade, mas serei capaz de aceitar que alguns homens não sabem que vale a pena amar. Imagino, em desespero, uma bondade universal sem hipocrisia ou cinismo (para se lutar contra a ignomínia).
A barbárie e os crimes contra a humanidade resultarão de todas as hipóteses possíveis, mas nunca do amor. Será por isso que o óbvio, nestes dias, tem de ser escrito muitas vezes ( para se acreditar que aconteceu, um dia, na América).
Não sabemos se é imaginável cantar canções de amor nos dias do futuro; nem sabemos o que acontecerá na incerteza dos dias da angústia (estamos em guerra com aspectos bárbaros da alma humana e as palavras não são nada).
Lembro a América de quase tudo o que não se pode escrever sobre a condição humana; a América que simboliza, nestas horas, a coragem do mundo (será irrelevante a moralidade, mas não conheço argumento melhor).
Não sei (como quase todos os que choram nestes dias) o que escrever, mas acredito que vamos resistir.
11 de Setembro de 2001
(Voando sobre a África Ocidental, algures entre São Tomé e a cidade da Praia, em Cabo Verde)
* Publicado no Açoriano Oriental de 12 de Setembro de 2001.
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posted by Antonio Joao Correia @ 6:24 PM   |
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| 7/Set/2004 |
| Wal-Mart ou a solidão dos poetas |
Raramente vou a estas lojas.
Passam despercebidas na Europa mas são as maiores do mundo em vendas e lucros. Tudo organizado, limpo com qualidade “made in China” mas ainda assim melhor que qualquer grande superfície portuguesa (o que também não é difícil, eu sei).
Ando por ali meio perdido. Nem sei ao que vim.
A minha filha empurra-me para um estranho Macdonalds “ Wal-Mart style”: no meio da loja existe um Macdonalds que também tem fotógrafo.
- Um fotógrafo?
- Que raio faz aquele homem ali, no meio de batatas fritas, Big Mac’s e o Randal Macdonald (o palhaço).
A primeira é de graça, desde que se comprem as outras duas. A moldura está incluída. Tudo quase de graça mas artificial.
Pensei no senhor Pepe, o melhor fotógrafo do mundo, que era também meu vizinho em Vila do Porto.
Ao que isto havia de chegar, e eu aqui, nas compras. O senhor Pepe era uma figura admirável, poética.
Não vi ninguém de fato-de-treino, mas não faltam garrafões de plástico e uma secção de bíblias em saldo ao lado de bolachas com recheio de manteiga de amendoim.
Postais judaicos ao lado de enlatados da Arábia Saudita fazem sucesso.
Vi um livro de Walt Whitman, irmão. Estava ao lado de um livro de dietas que se chama “ South Beach”. Atum em saldo, pimentos com cogumelos em promoção.
Que mais posso contar ?
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posted by Antonio Joao Correia @ 6:19 PM   |
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| 6/Set/2004 |
| The only living boy in NY ? |
Ontem foi o dia do trabalhador na América do Norte, onde vivo em exílio. Não é Maio, mas também não vi as mulheres da Almirante Reis deitarem flores para os camaradas. Nem sinais de Rosa Coutinho ou Vasco Gonçalves numa pensão em frente à Portugália.
Maio era diferente: tinha vinho verde e o José Afonso em som de qualidade duvidosa. E o povo ou o que restava da diminuta classe operária portuguesa. Faziam tanto barulho na Alameda que eu não podia estudar... direito. Da varanda do meu quarto ouvia o povo que mais ordena. Vinham camiões do Alentejo. Eu gosto do Alentejo.
Uma vez fui à Voz do Operário, na Graça, em Lisboa. Não vi o povo, mas apaixonei-me por uma mulher bonita. Qualquer coisa em Maio. Setembro era a festa do Avante, primeiro na Ajuda (uma EP- Entrada Permanente) e depois já no Seixal, na Atalaia. Eu teria dado uma comuna de primeira. A camisa do Ché. O Ché. O meu ar burguês. Estudante de direito na Universidade Católica. Poeta no bairro alto. Inventei o Tóquio no Cais do Sodré, pois.
Tenho autógrafos do Saramago, Ary e, golpe de génio, dos resistentes do Tarrafal para não falar de uma fotografia em que aparece o Cunhal e, sim, o próprio Dias Lourenço (eu não apareço na fotografia, mas poderia). O Cunhal qualquer um pode dizer, mas o Dias Lourenço é só para a elite. Fiquei antifascista desde que nasci.
Aqui vão para os parques e comem cachorros. São operários e não sabem das manifestações de Lisboa. Nem um falso comuna em redor. Um sindicalista profissional ao menos ? Digo que sou um deles ? Digo que vi a CGPT –IN ? Saberão do Dias ?
Da Catarina Eufémia ? Onde está a camisa do Ché ? Só vejo o Kerry e a guerra no " Name"
Conheci o Otelo numa vigília em frente a Caxias. O pessoal do PSR e da FUP tinham um certo fascínio. Não gosto de terroristas. O Otelo não dizia coisa com coisa. Lembra-me o Bush.
Num dia fui ao grupo de trabalho Vitória ( PCP, Avenida da Liberdade) e meia hora depois encontrei o Mota Amaral a sair do hotel Tivoli. Hoje, sou um admirador do homem, mas não gosto nada do PPD.
Estive apaixonado por uma comuna muitos anos. Bem, eu seria mais comuna. Terei sido uma Zita Seabra antes do tempo ? Catarina Eufémia ? Vi o Zeca Afonso na vigília por causa do Otelo. Ele estava muito doente.
Li Marx em Vila do Porto, ao pé de várias sacas de farinha. Tinha 7 anos e era uma esperança do movimento revolucionário. O próprio Mário Soares, por causa da Conceição, ficou impressionado. Esta criança é um prodígio. Soares está patético. Peço desculpa, mas está.
O Otelo não me pareceu muito inteligente e dizia “ pá” e “ porra”. Sou mais Salgueiro Maia. O Maia morreu.
Onde estou ? Quem me diz que isto não é a América ? Saberei da memória ?
(The only living boy in NY ?)
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posted by Antonio Joao Correia @ 6:22 PM   |
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| 5/Set/2004 |
| Campanha açoriana, tópicos soltos |
Os senhores que não pagam impostos estaduais como o comum dos mortais, financiam as campanhas dos principais partidos políticos. Fala-se de assuntos banais todos os dias mas de quem paga (e do que exigem em troca), nada se diz em público. Aceita-se o custo fixo da democracia como algo de menos mau (claro que existem outros custos como as centenas de políticos profissionais – alguns ad eternum – para uma região com pouco mais de 250.000 almas).
A televisão é controlada, ou por um partido do poder ou pelo que ambiciona chegar ao poder (um orifício de despejo de favores e “controleiros” em versão Autonomia regional).
Os jornais dizem o que quem lhes paga os anúncios sugere. A opinião que se publica é controlada. Aceita-se a liberdade de expressão desde que não atente contra a balança dos pagamentos. Repare-se – exemplo trivial – que nunca são publicados artigos de investigação sobre os monopólios que ainda hoje( 2004!) dominam os Açores.
O negócio da droga é ignorado pelas polícias e partidos e só o peixe miúdo é detido. Em São Miguel, para uma população de menos de 150.000 pessoas existem mais de 8000 consumidores regulares. Existe, estranhamente, tráfico livre. Curiosamente o tema passa ao lado das campanhas. Como também ninguém diz do dinheiro do futebol profissional utilizado para o que é público. Fortunas da Autonomia? Pois.
A pobreza continua. Esta é a região mais pobre de Portugal e, per capita, a que recebe mais dinheiro !
Os níveis de produtividade são dos piores da União Europeia.
O orçamento regional paga quase tudo desde que se saiba gerir o tempo político. O silêncio. A homenagem. O obséquio.
Ignora-se o rigor e premeiam-se os oportunistas. O mérito, o trabalho a qualidade e o profissionalismo são mal vistos. A inveja é o dia a dia numa terra muito atrasada.
Até o catolicismo local se adapta a tudo. Hoje são socialistas. Ontem eram de direita. Por um telhado de igreja ?
A educação continua a fazer-se em função dos interesses dos professores e de sindicatos e não dos alunos ou das famílias.
Os métodos de propaganda: na página de um folheto a cara do Santo Cristo dos Milgares, na outra página, a do candidato.
A saúde é de qualidade apenas para quem tem dinheiro ou conhecimentos. Os outros acreditam na sorte ou em Nosso Senhor.
Ninguém exige resultados. Do funcionário público regional ao pequeno comerciante que foge ao fisco, criou-se uma sociedade baseada no favor, no jeito, no expediente. Trabalha-se muito pouco, especialmente no sector público, mas como são a maioria dos votantes...Nada de levantar ondas...
O risco dos grandes empresários é quase sempre assumido pelo sector público. Os lucros, a existirem, são para meia dúzia de “ bem relacionados”.
Os resultados do turismo trazem os pobres do norte da Europa em turismo de estado necessidade. Os subsídios não são fiscalizados , obviamente. Oferta e procura ? Bem, temos uma oferta subsidiada e uma procura subvencionada.
Os trabalhadores do sector privado são, em geral, pagos miseravelmente.
Os transportes servem as organizações e não quem deles precisa. O transporte marítimo de passageiros é uma aberração nojenta, partidária.
Os gestores públicos são nomeados em função da solidariedade política. Até hoje nenhum foi responsabilizado pela gestão! Competência ? Deixa-me rir.
A agricultura é um elefante branco que vive da berraria e da influência. Ninguém diz, por exemplo, que o leite que é vendido ao consumidor, tem níveis de qualidade duvidosa (foi recusado para exportação na América do Norte!!!). Quanto custa ? Quanto custa esta ficção ? A Universidade é apenas geográfica. Não investiga e especializa-se em cursos sentados.
Na cultura (o meu tema) não existe nada, nada (recuso-me a aceitar fretes culturais pagos a peso de ouro em função de ligações familiares ou silêncios políticos). Pouco inculto é povo mais bem controlado.
Se isto é Autonomia, eu não quero Autonomia.
etc.
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posted by Antonio Joao Correia @ 9:17 AM   |
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| 3/Set/2004 |
| Balada do açoriano nacionalista |
Vi que saberias morrer, deixa o mundo
Masturba Deus e faz de ti um profeta
Reza a Nossa Senhora que não sabes do
Espírito Santo nas fábricas de Fall River
Chamam-te Europeu, puta que os pariu
Nem sabem que o mar é nosso: nosso
Mar, não temos mais nada, nada
( para além da coragem)
Um sentimento fechado, duas vacas
E um horizonte maior, vê vulcões, vê
Pedras de lava, nevoeiros, céu
Óvulos em permissividade,
Antero de blue jeans
E agora ? Combates ?
Estou sozinho e vou para a independência
Nem sei de ninguém, nem sei
Espírito Santo, milagres
Do tempo para partir
O último açoriano vivo foi comigo ver o céu
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posted by Antonio Joao Correia @ 6:26 PM   |
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| Um dia na vida da América |
Neste egoísmo não sei quem me amou mais, nem saberei se quero saber. Dirás que foste tu? Passo por ser um exilado açoriano da América do Norte. Revolucionário sem revolução, socialista não social, poeta sem poemas, escritor sem leitores. Outro dia esqueci uma palavra em português. E o mundo não mudou.
Gosto do declínio dos amantes poetas e ninguém diz nada. Feliz pelos precipícios. Fala do amor.
Poderias dar-me a tua mão ? Sabes que neste egoísmo não sei quem me amou mais?
No horizonte do teu corpo, que não conheço, faz frio. Os poemas são assim.
Poderia ter sido quase tudo, mas fui ver; faz frio, poeta, sem poemas, nada.
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posted by Antonio Joao Correia @ 6:03 PM   |
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| Canção do símbolo abandonado |
Feliz do destino que parte para o desejo;
Imagina que me sabes
Perto do remorso e de nós,
Assimila a distância do mundo
No silêncio do teu amor;
Feliz
Fica. Parte no sossego do teu afecto
E diz o verso, recolhe a solidão, descobre
Parte Feliz,
Imagina que me sabes
Acreditas ?
Evoluo na sedução, canto o que quiseres,
Deseja-me enquanto podes
No silêncio do teu amor
(vi o mar da tempestade)
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posted by Antonio Joao Correia @ 5:39 PM   |
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