| Resistir |
"Blog" livre, feito a partir do Oceano Pacífico, por António João Correia, um exilado na América do Norte. "Resistir" is Antonio Correia's free blog. From the Pacific Ocean... |
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| 31/Ago/2004 |
| Elogio pessoal |
Para uma juiz de direito(juíza em português) que se chama Filipa. Podem ser poucos mas ainda há quem resista e aplique a lei.
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posted by Antonio Joao Correia @ 5:23 PM   |
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| 30/Ago/2004 |
| Portugal português e a moral dos outros |
Quem tem dinheiro faz os abortos que quiser, quando quiser. Ninguém fala do assunto, não é crime, não é nada para a moral da maioria. Quem não tem dinheiro usa do vão de escada, da morte e é quase tudo. A igreja aqui ainda manda em Portugal e na ideia da moral e verdades alheias. Deus é um anexo.
Dito isto acho que o barco do aborto é uma estupidez digna do pior radicalismo. Não é feito para as mulheres que precisam mas para a fanfarra que aparece na televisão. Temos a esquerda caviar, temos o aborto de alto mar para os conhecidos e amigos.
O Ministro da Defesa e do Mar, que não fez tropa obviamente, apregoa a moral que o próprio D. Miguel apregoaria. Um nojo. Um Ministro da Defesa e do Mar que deveria preocupar-se com outras coisas, nunca com a moral que tantos serviços presta à injustiça. Ministro de quem ?
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posted by Antonio Joao Correia @ 5:03 PM   |
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| 28/Ago/2004 |
| Ilhas desenvolvidas (a visão parcial) |
Vi um porco, duas galinhas, nove beatas, dois drogados, frascos de doce de amora, bifes com pimenta e o Espírito Santo esfaquear uma vaca subsidiada por Bruxelas. Visão parcial mas gostei ainda do consumo dos pobres nos hipermercados, alimentado pela vaidade dos partidos.
Temos pobres de estimação ao melhor estilo da esposa do velho Almirante Américo Tomás.
Orgulho na ignorância ? Medo dos terramotos que Nosso Senhor castiga ?
Pouco mudou na minha terra: até a igreja conseguiu, em trinta anos, fazer a evolução de ajudar um fascismo «soft» para se ajoelhar a um falso socialismo que paga telhados de templos católicos e ajuda à manjedoura terrena desde que o silêncio seja cumprido.
Burocratas de sucesso em terra muito pobre ?
Ladrões impunes, violadores de crianças com “abaixo-assinados”, agonias da verdade e a compreensão para quase tudo são nota de rodapé. Nem um sermão, um decreto, qualquer coisa, um artigo de opinião num jornal controlado, uma notícia da televisão do partido. Nada.
Ninguém fala do atraso e da miséria. Talvez nem saibam (acho que são felizes e a felicidade é o mais importante).
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posted by Antonio Joao Correia @ 8:37 AM   |
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| 24/Ago/2004 |
| Se eu fosse o António Nobre, poeta de Portugal |
Desço esta rua e não conheço ninguém:
Uma mulher que vejo não pede para dançar
Dois velhos, muito velhos, jogam cartas
Não é no jardim do patriarcado
Não é, mas jogam cartas
Um cliente fala numa língua estranha
Eu falo coisas que nem sei
Lê a “Bola” de Portugal, lê
Passa-me o padre António Vieira
Reza a Nossa Senhora
Refere um poema de Cesário,
Dança para eu ser feliz, dança
Desce a rua e ninguém sabe( acho que chove na minha cidade)
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posted by Antonio Joao Correia @ 5:09 PM   |
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| 23/Ago/2004 |
| Adivinha |
Adivinha de onde sonho ?
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posted by Antonio Joao Correia @ 5:48 PM   |
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| 21/Ago/2004 |
| Além do poema( falas do quê António ?) |
Fomos ver Garden State e só não gostei da parte do amor, excessivamente real para ser cinema. Por pouco não pedi direitos de autor por uma cena que inventei num restaurante chinês de Ponta Delgada (no filme o restaurante é vietnamita mas o assunto não muda).
A noção da felicidade após a doença do descobrimento leva-nos a uma teoria do conhecimento feita à medida do individuo em desespero.
Se é da forma humana a busca tenho receio da desilusão da conquista, defendendo uma aproximação com os sentidos. Sempre a matéria, eu sei, mas a matéria não sabe do fundo do poço onde moram os fantasmas do sentimento (e este parágrafo parece um tango com dislexia).
O homem do restaurante pergunta como quero os ovos: sei lá como quero os ovos, nem sei se devo comer ovos. Apetece-me uma torrada como só havia em casa de Sofia.
Lembras-te daquela empregada do supermercado Baptista que perguntou se eras de Lisboa. A gaja é tola, então eu vinha aqui ao cinema antes da conversão para supermercado (o lugar do costume, L2), cresci aqui, parti a cabeça, aprendi a escrever, vi Deus morrer, duas prostitutas, mais de dez enterros, o Concorde, autógrafos do Eusébio, uma camioneta da carreira, oitocentas e quarenta sacas de farinha, rações para porcos, poemas, sonetos, dez religiosas e a gaja pergunta-me a origem territorial como um guarda de fronteira.
Acredito nas confissões. O padre Jacinto confessava rápido, perguntas gerais, e saíamos absolvidos. Um dia provoquei um incidente – o padre Jacinto estava de folga – pois não tinha pecados a declarar e lá inventei (Deus morreu de overdose de sexo, fui excomungado e acabei por fazer poemas para leitores imaginários).
Fomos ver Garden State, percebes.
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posted by Antonio Joao Correia @ 10:35 AM   |
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| O amigo candidato( ficção) |
Para quem conhece a senhora, como a Conceição, os anos noventa nunca mais acabaram: de recuperação em recuperação, de esmola em esmola. Falei-lhe do Casal Ventoso e de Ponta Delgada onde a heroína financia o futebol e a política . É verdade, financia e ninguém se importa ( mentira).
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posted by Antonio Joao Correia @ 10:15 AM   |
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| 19/Ago/2004 |
| Não sabia |
Entro no metropolitano que aqui se chama outra coisa qualquer. Sento-me, tiro a gravata, começo a ler. Duas filipinas com uniforme de enfermeiras falam sobre a desgraça dos saldos, uma mulher (provavelmente) do Sudão lê um jornal de negócios enquanto um grupo de estudantes japoneses segue aos beijos e abraços.
O ar condicionado está ligado, o «i pod» funciona. Ainda bem que deixei o carro na garagem. Entram mais pessoas. A mulher do Sudão fala com uma vizinha. Leio um romance que poderia ter sido de amor.
Sairei a seguir. Nunca mais nos veremos. Poderia ter continuado mas não sabia.
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posted by Antonio Joao Correia @ 5:48 PM   |
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| 18/Ago/2004 |
| Tudo |
Gosto de escrever em português. Passam dias que não falo esta língua pois trabalho em inglês ou francês (e ultimamente num mandarim muito primitivo) e nada mais importará. Onde vivo existem poucos portugueses, o que pode ser considerado uma felicidade provisória. Mas ando por aí a ler coisas de Portugal, da minha aldeia/pátria açoriana. Leio por saber demais. Por nada (a teoria da saudade).
Outro dia passei por cima de território açoriano, acho que vi as Flores e tentei explicar a uma acidental companheira de viagem que era dali, daquelas ilhas. Expliquei que nos anos setenta vivia entre Vila do Porto e Providence (e lá falei no aeroporto dos sonhos, das centenas de viagens para a América, da liberdade poética de não desistir). Disse do mar (que também é meu) e do Santo Cristo. Não falei do vento mas nem sempre se pode dizer tudo.
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posted by Antonio Joao Correia @ 5:01 PM   |
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| 16/Ago/2004 |
| Obviamente democracia (hoje vi a televisão açoriana) |
Imagine-se, por ficção, que existia uma terra chamada Açores onde o povo é feliz e o governo que o povo ama tem tiques fascistas (com aquele rigor que habitualmente se emprega o termo em Portugal). Alguém se importa?
Onde se utiliza mal, vergonhosamente, partidariamente, comprando mudez e por velha tradição os fundos públicos que ninguém fiscaliza. Alguém quer saber do assunto?
Onde o alcoolismo crónico - de tão grave que nem existe - e o silêncio em redor da arbitrariedade são condições regulares de acesso ao exercício de cargos públicos. Irrelevante para a maioria?
Onde o atraso cultural é a forma mais sedutora de manutenção ou acesso ao poder político.
Terra dominada por políticos profissionais que nunca tiveram de lutar através do mérito profissional. Natural ?
Onde se percebe tudo e nada se faz, salvo em função dos caciques, do partido, da conveniência do voto.
Onde a comunicação social depende de dois partidos e obedece de cócoras.
Obviamente uma democracia que se faz merecer a si própria. Um sucesso.
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posted by Antonio Joao Correia @ 5:42 PM   |
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| 14/Ago/2004 |
| Nada |
Saberás da minha mão
Desta que escreve para não saber e
Escreve para nada, nem leitores, poetas
Dois amores, quatro amantes
Sete livros na estante
Nem eu
Saberás da forma que escrevo
Para não ler:
Ler-te e escrever-te também
Deixa-me uma vez
Saberás da minha mão
Percorre este destino dos poetas
Dissimula o orgasmo
Sente o incomodo do amor
Ando a escrever-te, diz que não
Escreve para nada, nem leitores, poetas
Dois amores, quatro amantes
Sete livros na estante
Nem eu
Saberás que sou, nada
Saberás da forma que escrevo.
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posted by Antonio Joao Correia @ 12:51 PM   |
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| 12/Ago/2004 |
| Elogio da forma bárbara |
Um dia e apenas nesse dia encontraremos o destino dos poetas.
Ela não sabe, sabendo quase tudo
Fim possível de uma matéria (eu escrevo sobre a matéria Ramos Rosa, ainda és vivo?)
Escreve poesia, escreve:
Na rua passava uma mulher triste, triste como tu
Uma vendedora de sexo, sim eu disse de sexo, e
Poderás escrever que viveu quase tanto como foi feliz
Escorregou no adjectivo e foi
Nada mais importa. Sem comentário,
Escreve se faz favor
Um dia e apenas nesse dia encontraremos o destino dos poetas
Olha que este rapaz tem jeito para a poesia:
Um intelectual e aplaudimos de pé, vomita se és homem
De pé, outra vez, e recordemos que nesse dia encontraremos o destino;
Poetas, dos poetas que não é fácil ler, repetição
Tentarei começar de novo: calma leitor, isto não é simples
Um dia e apenas nesse dia encontraremos o destino dos poetas
Ela não sabe, sabendo quase tudo
Escreve poesia, escreve
Pariu nove vezes, abortou, e não é ficção, mais de vinte
Candidata a Presidente nunca foi, devo rimar agora
Coração? Ficção? Ainda és vivo?
Agora a parte sensível: dirão (mais rima com coração)
Um dia e apenas nesse dia encontraremos o destino dos poetas
Ela não sabe, sabendo quase tudo
Escreve poesia, escreve
E verás que ninguém quer saber, que não interessa,
Que não passa, que não.
Li e acho que estás velho
Eu ( é de mim que quero falar, tu és poeta e não interessa, a mulher do sexo também não é o tema) nem sei
Se existe a poesia que não vejo.
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posted by Antonio Joao Correia @ 5:49 PM   |
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| 10/Ago/2004 |
| Falso poema de Agosto |
Estarás comigo, meu amor?
Não sei do que falas, mas estarás comigo?
Quando eu disser que não, para sempre
Estarás comigo para ver nada de especial
Nem uma lua, traços de destino
Horas da tarde, quatro pássaros,
Vento, essas coisas
Só para estares comigo?
Estarás, meu amor?
É da solidão que eu gosto, percebes?
Para nada. E ainda assim estarás?
Quantas vezes? Preciso de notícias?
Estarás?
Sim. Comigo ou com quem haveria de ser?
Digo o que me apetece. Sempre
É verdade, diz que não, não
Nem jeito para jogar futebol,
Tocar piano, brincar, ser sincero,
20 valores na quarta classe, bananas chamam-me doutor
em Portugal e quis uma revolução:
Vi o Árctico, fui herói no meu quarto
Salvei o pecado do isolamento
Estarás quando eu disser que não?
Aprendi a nadar no mar de Santa Maria
Fiz amor na Argentina
Casei em Las Vegas
Só para estar comigo, obviamente
De ti nem quero mais
Percebes
Estarás comigo?
Uma vez ia morrendo em África por causa
Da solidão e da malária
Nada mais relevante, sou pai, é verdade
É da solidão que eu gosto, percebes?
Ia morrendo, ouviste?
Mergulho no Pacífico todos os dias
Todos os dias
Lá mergulho
Fala do que eu sei, dá-me egoísmo
Sente qualquer coisa
Terás poemas que me delapidam?
Que venham os poemas
Estarás comigo amor dos outros?
Saberei da dor mais do que digo
Ah, da dor mais do que digo?
Até morri, imagina. morri
Comove-te, desta vez
Só para estar contigo
Meu amor? Da solidão?
Estarás comigo?
Estarás?
Quando eu disser que não, para sempre,
( em Agosto)
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posted by Antonio Joao Correia @ 5:43 PM   |
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| 9/Ago/2004 |
| Investigação criminal made in Portugal |
É séria quando não incomoda ninguém com poder;
Teve e tem uma agenda política;
Mal preparada, sem meios, não atinge a criminalidade económica e de influência;
Raramente vai à base dos factos;
Existe tendencialmente para o pilha galinhas que furta para comer.
Cinco exemplos:
O tráfico de estupefacientes
O futebol
O financiamento dos partidos políticos
As empreitadas públicas
Pagamento de impostos
Não tenho dúvidas que o caminho da justiça criminal portuguesa está, quase sempre, entregue ao oportunismo do poder: dos vários poderes profissionais, económicos e políticos.
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posted by Antonio Joao Correia @ 5:54 PM   |
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| 8/Ago/2004 |
| Portugal em 04.08.08 |
Fui almoçar a um restaurante português da diáspora. Caldo verde e bacalhau à Brás no Oceano Pacífico. Pão de milho.
A televisão (os restaurantes portugueses têm sempre televisão) diz-nos das notícias de Domingo, em berraria.
O bastonário da minha Ordem exige um inquérito sobre o segredo de justiça. Um jogador de futebol português passa no aeroporto de Atenas com um boné, o FCP não tem treinador, um Ministro qualquer fala em números e rigor. Qualquer coisa sobre a União de Leiria (?). Meu Deus!
Na mesa fazem-se apostas: mais de uma hora de notícias, uma hora e meia (ficou quase uma hora e meia).
O estúdio de televisão parece um circo do terceiro mundo com vários monitores e «notícias» internacionais (as referências ao PM do Iraque são de nível...).
Aquela luz. Aquele brilho. De repente umas bandeiras de Portugal numas casas em ruínas de Lisboa (falam nas rendas baixas, pois).
Muita política, baixa.
Nada de novo.
Jornalismo corrupto, comprado, mal preparado e ridículo como vi e vejo também nos Açores (e confesso que acho que o povo gosta). Ninguém diz nada. Aceitam tudo.
No meio da chuva vejo uns ciclistas em esforço numa bicicleta parada. Volta a Portugal.
A irmã do “ malogrado” Joaquim Agostinho diz qualquer coisa. Acho que estamos perante um “ suplemento.
História ?
Não sei, parti. Parti. Mete nojo o silêncio( eu vi o silêncio no Palácio, aceitavam tudo para manter a porcaria).
Nada mais ? Portugal, ponto final.
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posted by Antonio Joao Correia @ 1:33 PM   |
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| 7/Ago/2004 |
| Poetas próximos (Deus não existe) |
Procuro uma definição e não encontro: definição de qualquer coisa, uma novidade, algo antigo, tanto faz, mas nada, como que se acabaram as definições. Que dia será este? Que amores não aconteceram? Poemas perdidos? Devo amar-te para esquecer o destino da banalidade das coisas?
Que se passa hoje em Vila do Porto?
Na minha rua de Lisboa?
Devo procurar em outro lugar, talvez junto da rapariga da mesa ao lado que fala inglês com um sotaque da Jamaica (eu tenho sotaque de Toronto, o que nem sempre é uma vantagem).
Devo procurar nos poemas que não encontro nos acasos da vida. ?
Que farei? Será das leituras?
Uma criança brinca e passa um corvo (vejo vários, já o disse, na varanda do meu quarto).
Fui criança na América e em Vila do Porto. Na América ia com o avô João jogar póquer para um clube do Espírito Santo em East Providence (o avô João escrevia peças de teatro e desconfiava do homem na lua); em Vila do Porto vi, com o avô António, a poesia em deificação (o avô António era poeta e escrevia docemente – quase todas as mulheres que conheci estavam por ele apaixonadas). Conheço pouca gente que escreva de forma doce.
Que farei?
João partiu em 1975 de Providence para uma sala de teatro do céu (na altura eu ia à missa e rezava a Nosso Senhor). António, que era quase tão ateu como eu, partiu em 1996 e anda a seduzir as flores do mundo.
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posted by Antonio Joao Correia @ 7:08 AM   |
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| 4/Ago/2004 |
| Acho que somos nós |
Muito bem, chego à porta de embarque e já mostrei o cartão de identificação umas três vezes. Passo a vida nisto e não consigo apanhar o hábito.
Um homem com aspecto de padre católico descalça os sapatos, uma rapariga que parece a Paris Hilton passa e não sorri (os meus ilustres leitores de Portugal não devem saber quem é a Hilton, mas também não interessa).
Neste momento qualquer pessoa é um potencial terrorista. Eu próprio sou suspeito pois tenho menos vinte quilos do que na fotografia do passaporte (numa terra em que todos engordam, deu-me para emagrecer). E não gosto do governo da minha terra, o que é irrelevante.
Para não variar o voo está atrasado. Odeio férias sem estes contratempos pelo que temos um plano B: se não chegarmos ao Canadá que não fala inglês em tempo útil vamos para Las Vegas. Em Vegas somos quase tudo ( eu sei, eu sei, não é o que Vegas dá, mas é aquilo que não nos tira...).
Duas chinesas metem conversa: se sei onde fica a capela do terminal. Logo eu, um ateu por graça de Nosso Senhor. Como trabalho com alguns chineses falo alguma coisa de Mandarim e elas respondem. Não percebi nada. Falar é uma coisa, perceber é outra...
A minha filha quer-se ir embora. Como está mal disposta só fala em português (somos uma família trilingue e o português anda a ficar minoritário). Compro uma biografia do Nixon: o desespero da espera não tem limites. Acho Nixon e Carter dois Presidentes fascinantes, mal compreendidos, poetas desalinhados, confusos, emotivos...Falta o melhor Primeiro-Ministro de sempre do Canadá, Trudeau, para esta linha ser mais composta...
As chinesas voltam. Acho que somos nós.
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posted by Antonio Joao Correia @ 5:49 PM   |
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| 2/Ago/2004 |
| Sobre L .A. |
E vou para o aeroporto de Los Angeles. A morrer de sono tenho de lá estar três horas antes da partida. Segurança disto, daquilo e daquele outro e é fácil perceber o cansaço desta gente toda em torno do tempo que passa, de uma agonia.
A América endoidece com a segurança e, como não existem inocentes, estamos em busca do suspeito habitual (nestes dias todas as pessoas parecem suspeitas de alguma coisa).
O aeroporto está caótico. Milhares de mexicanos em férias lutam por um lugar na fila de um dos miseráveis restaurantes; vejo famílias de chineses em perdição por um espaço na fila (de passaporte USA em punho). Aqueles australianos reconhecem que já não estão na praia.
Não sei do trânsito insuportável e deste cheiro a Verão na Califórnia que é, por agora, horrível.
Atrasos, filas para as casas de banho, hospedeiras, raparigas de Singapura em delírio. Este LAX é uma porcaria. Venho para aqui par ir para qualquer lado desde os anos oitenta e cada vez está pior. Dizem-me que tenho de esperar mais uma hora. Mudaram-me a porta de embarque. A minha filha mete conversa com um francês – terá já uns sete anos – de aspecto suspeito.
Até o restaurante japonês (que é decente) e que já conheço – eles ignoram-me com subtileza – tem espera para mais de meia hora. Não tenho paciência. O francês até tem uma prancha de surf para crianças com seis anos.
- Ema, queres “sushi” ?
- Raquel, a Ema quer “suhi”?
- Ninguém me ouve aqui?
- Não sei se eles têm “shashimi”...
- Não, o homem não fala inglês, achas que fala espanhol?
- Nigri sushi? Two, yes, to go.
Quatro filipinos pedem-me informações. Na segurança nem sei de que nacionalidade serei. Sinto-me suspeito. O telemóvel não funciona. Um veterano do Iraque diz-me olá, duas brasileiras servem à mesa num restaurante (?) de gelados; aquele ali parece um sujeito que tem uma tasca no Bairro Alto.
(continua) |
posted by Antonio Joao Correia @ 9:02 PM   |
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