| Resistir |
"Blog" livre, feito a partir do Oceano Pacífico, por António João Correia, um exilado na América do Norte. "Resistir" is Antonio Correia's free blog. From the Pacific Ocean... |
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| 30/Mai/2004 |
| Dramas regionais |
Não é bem a falta de qualidade política nos Açores que preocupa: o povo, na sua sabedoria, elege quem quer, como deseja, e se a ignorância dominar o substrato de quem vota, paciência..., é o drama das democracias recentes, sem lastro, dominadas pela pobreza, miséria, obscurantismo, expedientes banais e melancólicos que vão dos subsídios, romarias em procissões, bancos da fome em publicidade de salão de chá até à televisão (?) mais nojenta, etc.
Preocupa é a falta de massa crítica, de intelectuais que se mostrem indignados, de gente que diga não, que lute por aquilo em que acredita. Parece – e eu não acredito – uma terra de amorfos patetas que tudo aceitam, seja por medo, comodismo, oportunismo, dinheiro ou mesmo estupidez cultural. A mesma que aceitou a escravatura nas ilhas, a inquisição e mais recentemente se deitou na cama do alegado fascismo «soft» português do século XX. Todos, pois, em silêncio à espera do Senhor Santo Cristo dos Milagres, o Espírito Santo ou Nossa Senhora de Fátima. Talvez ainda no inconsciente, de umas sacas de roupa da América, agora em versão Bruxelas. A mesma que faz manifestações e abaixo-assinados a favor de alegados criminosos violadores de crianças. Tudo sabiam e tudo em silêncio.
Uma terra sem intelectuais é o que se vê. A Universidade dos Açores, de que nada se conhece, lembra-me uma teia burocrática inútil, uma espécie de fossa séptica ausente de qualquer massa crítica, sendo(?) apenas uma forma de quem não tem dinheiro de ir estudar para fora da região, apresentar um diploma de bacharel. Com excepções, certamente, mas de tal forma secretas que nada se poderá dizer.
Do resto, da sociedade civil com liberdade pouco ou nada existe; é uma ficção para entreter favores, partidos, conhecimentos ou invejas.
Temos imprensa. Pois, mas é também o que se vê de ausência liberdade, isenção, honra e dignidade.
Dos órgãos de governo próprio, como não têm autonomia dos caciques, pouco se poderá acrescentar.
Talvez seja por isso o atraso que ninguém fala. Talvez.
Talvez cada povo tenha o que mereça.
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posted by Antonio Joao Correia @ 5:06 PM   |
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| 27/Mai/2004 |
| Desejo |
É verdade que percorro um jardim qualquer junto à biblioteca central desta cidade, é verdade, mas não é bem isso que tenho de escrever. Reparo, então, que às árvores estão estranhas, esperando qualquer coisa, provavelmente um poema; e eu sempre me comovi com poemas ao pé de seres vivos.
Serei do tempo dos poemas, como aquela professora que tive no fim do secundário que andava a preparar uma tese de doutoramento sobre as consequências da existência segundo São Tomás de Aquino...
Não que a teologia seja importante, mas é um caminho que nos livra da inutilidade da condição humana, que abre as portas ao desejo... E, desconhecido leitor, tenho por certo que é o desejo que importa preservar.
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posted by Antonio Joao Correia @ 5:38 PM   |
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| 26/Mai/2004 |
| Simples |
Faço do sol, deste que me vê, a companhia desta manhã. Regresso aos poucos à realidade das coisas, por entre florestas de sonhos.
Leio as notícias, destas notícias, e ignoro em solidão a verdade da pátria, destas pátrias que me fazem qualquer coisa.
Gosto de escrever sobre Vila do Porto, apesar de ser mais de Lisboa, Toronto, Los Angeles ou Nova York. Escrevo, tristemente, sempre por causa das pessoas que vi, senti ou li.
Serei, pela irrelevância, um poeta sem poemas que percorre o mundo em busca de leitores carentes, talvez.
Uma vez, em Buenos Aires ( e eu sou mais de Buenos Aires do que Vila do Porto) tirei uma fotografia ao lado de uma daquelas mães que tiveram os filhos assassinados, na praça de Maio. Lá fiquei e ela, no fim da inutilidades destas coisas. Serei da cidade antes de ler Borges, que terá dito que estes labirintos são o que importa. Será que ela ainda sabe do que importa, da viagem?
Restam poucos poetas, é verdade, restam poucos leitores, mas não se pode parar. A estupidez humana também já não comove.
Viverei à sombra daquela ideia, talvez a render juros depois de depositar as ilusões algures na ingenuidade da bondade humana, que não existe. Tenho saudades de acreditar em Nosso Senhor, aquele de Vila do Porto, que tudo sabia. Tenho saudades, apesar de nem ser tanto o penso quando vi que o amor leva ao que importa.
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posted by Antonio Joao Correia @ 5:47 PM   |
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| 24/Mai/2004 |
| De Port Hardy para Tofino |
A estrada não é fácil e lembra alguma invasão bárbara. Carrinhas com surfistas mais ou menos “pedrados” – é a vida – fazem ultrapassagens ao melhor estilo da pior Europa terceiro mundista enquanto ecologistas fanáticos acampam ao pé de lobos curiosos; cansam-me, ainda, estes turistas estrangeiros que param por tudo e quase nada, esperando Deus em forma de postal. Oiço promessas de arranjo desta estrada deste os anos setenta, mas a verdade é que o difícil acesso protege o desenvolvimento «Azores style» e deixa uma das melhores praias do mundo para uma minoria vaidosa de privilegiados.
De avião não gosto, lembra-me sempre a disponibilidade dos bondosos japoneses que decidiram ser «americanos» na busca da natureza. De hidroavião nunca arranjo horários decentes e confesso que só de Inverno é que parece uma aventura a sério. Esta ilha tem, pois, mistérios, o que só por si equivale a não “desproporcionar”. Gosto das ondas e do vento, enigmas suficientes para quem também nasceu numa ilha e anda sempre em busca de semelhanças poéticas, como se fosse possível.
Como não faço «surf» em condições, imito o que posso e espero que alguma onda me leve para longe para ver orcas em perdição. Ando horas no mar, para nada, para aquilo que me pode comover. É a tempestade, ou a memória das tempestades que nos atrai a Tofino.
Estamos numa espécie de cabana e eu não quero partir. Arranjo más desculpas. Irei escrever uma peça de teatro sobre Tofino, obviamente com portugueses melancólicos, amantes açorianos ansiosos, canadianas doces e um cheiro a desejo que não se escreve. Será a condição humana em glória de recital amador; só é possível escrever a mesma coisa na esperança que leitores imaginários tenham liberdade de escolha, bondade. Aquele pássaro olha para mim: terá reconhecido algum parente, um primo desavindo, um parceiro de jogo?
Ao longe ficam as árvores que entram no mar. Estranhas, à espera de um momento para se transformarem em peixes. Acho que estamos isolados. Tenho de ir à cidade, mais aldeia do que outra coisa, comprar água e carvão. Os meus ouvidos ressentem-se dos mergulhos, a mulher da loja lembra-me uma rapariga de Vila do Porto que morreu de amor. |
posted by Antonio Joao Correia @ 5:27 PM   |
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| 21/Mai/2004 |
| Descanso (estou em férias) |
Em descanso puro. Apenas notícias, via BBC, de um casamento real que me fazem pensar que os portugueses têm uma certa queda para a monarquia. Como republicano plebeu apenas me incomoda a corte, que em Portugal lembraria quase sempre a massa burra que elege e faz eleger o que meia dúzia de patos-bravos decidem.
Simpatizo com Dom Duarte: é educado, fenómeno actualmente minoritário na choldra. Um monarca sem corte ou então pode ser que Felipe e a simpática jornalista aceitem ser reis da nação lusa. A minha filha, que tem um passaporte com uma rainha, até diz que eles seriam felizes nos Açores, obviamente em Santa Maria...
De resto, imito a arte com vida.
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posted by Antonio Joao Correia @ 5:07 PM   |
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| 20/Mai/2004 |
| No Oeste |
Estou em fim-de-semana prolongado. Não sei ainda para onde vamos, mas que iremos para Oeste não tenho dúvidas...
Adoro andar/navegar por este Oceano Pacífico sem saber por onde vou. Por vezes uma estrada, uns lagos, umas ruas que dão para um qualquer paraíso. Ando feliz na América sem Portugal. |
posted by Antonio Joao Correia @ 5:03 PM   |
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| 19/Mai/2004 |
| Sobre Vila do Porto |
Faço destas palavras o começo do romance: em Vila do Porto uma mulher endoideceu de amor, um cantor da América passa pelo aeroporto rezando em latim, uma banda toca qualquer coisa, acho que é apenas o senhor «Viúla», com um velho acordeão. Poderiam ser uns tangos, mas ninguém sabe bem o que é.
Giestas do tempo do Rei D. Carlos, daquela breve visita, resistem perto do mar dos pescadores de Cima-da-Rocha ( nunca vi gente tão corajosa).
Podem passar-se os anos mas em Salvaterra vivia um senhor, acho que Cafua era o seu nome, que tinha uns chernes e umas lagostas como nunca vi.
Nunca mais ninguém viu, é verdade, chernes como aqueles que o senhor Cafua vendia, primeiro nuns cestos e mais tarde numa daquelas motas com uma espécie de um pequeno armário na parte da frente.
Da tarde, no café Mascote, três travestis jogam às cartas. Oito beatas vão à missa, talvez de Monsenhor Virgínio e no hospital o Dr. Jorge avia mais umas receitas.
O padre Lopes faz mais um poema, provavelmente sobre rosas, mas ainda assim um poema que fará vida. « Cai uma rosa, cai outra, não maldizeis as rosas, elas não caem mortas, caem de sono», disse eu na escola primária de Vila do Porto perante uma assistência de sete alunos, quatro deles do Benfica e cinco que irão emigrar.
António regressou da Rússia. António esteve onde quis, com as mulheres que quis. Sofia foi à loja do senhor José Carvalho em Santo Antão, lembro-me do cheiro das pessoas a comprarem petróleo. Ia o petróleo numas garrafas de litro tapadas com papel vegetal.
No Baptista, pelo facto do barco não existir, cada cliente só pode levar um pacote de manteiga e outro de açúcar. Uns pacotes triangulares de papel aparentavam ser de leite, à venda no Pereira & Pereira. No talho da cantina do aeroporto via uma fila de gente para comprar uns bifes.
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posted by Antonio Joao Correia @ 5:38 PM   |
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| 18/Mai/2004 |
| Era uma vez na América açoriana |
Por vezes gosto de ir ver, de perto, a América açoriana.
Gosto dos olhares, das caves com terços e vinho de cheiro.
Ao lado das outras Américas.
Existe a mágoa, é verdade, mas há uma sedução em paz.
Vejo os carros com as bandeiras, as roupas, uma certa vida. |
posted by Antonio Joao Correia @ 5:21 PM   |
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| 16/Mai/2004 |
| Patrocínios ou a graça da fé (irrelevâncias) |
Acho que a procissão, a que Nosso Senhor será alheio, deveria ter patrocinadores assumidos,inequívocos, nunca tácitos: o contribuinte e em lugar secundário uma qualquer marca de bebida alcoólica, provavelmente uma cervejeira. Talvez ainda fosse de ponderar uma marca de cigarros protegida pelo Governo ou a heroína que se venderá na Calheta sem lucros declarados.
Esta versão de Deus é, pois, com mágoa, patrocinada pelo contribuinte. Somos do terceiro-mundo, pobres, atrasados, miseráveis, ignorantes, mas Este Deus é nosso, da tribo e irá proteger o que terá de proteger. Aos outros irá empurrar para uma caldeira de água a ferver.
Que ninguém se engane: Este Deus come chicharros com molho de vilão, bife de lagarto com aquela pimenta vermelha, pé de torresmo, anda de Fiat Uno, gosta de pizza mal cheirosa com chouriço industrial moído, passeia-se no hipermercado e usa uns chinelos de plástico com dedos nos pés. Como outros líderes, deverá deixar crescer a unha do dedo mindinho e beber bebidas brancas depois das refeições. A esposa (Deus para mim é casado) aguarda no carro a fazer renda enquanto o jogo de futebol decorre. Os filhos são um pouco sujos, com ranho, mas o mais velho até brica com computadores na sala do polivalente.
Claro que se poderia falar das marcas da fé, dos escravos que foram construindo a ilha, dos emigrantes que mataram a fome na América, mas não interessa.
É na miséria das coisas que se prospera o negócio e todos, ou quase todos, vão lá.
Os políticos, por exemplo, com fatos escuros dão nojo à procissão, o que continua a ser irrelevante.
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posted by Antonio Joao Correia @ 5:34 PM   |
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| Uma bancada do Pacífico |
Por causa da diferença horária, e estar no Pacífico é outra coisa, tenho de acordar cedo para ver o meu Benfica.
Aos Domingos vamos comer um pequeno-almoço muito «West Coaster», sempre procurando razões para ignorar qualquer pressão de horários. Não será bem a gordura animal, mas viver com vegetarianos fundamentalistas faz (ou fez) de mim um caso de estudo...
Da tarde irei a um aniversário de um colega de escola da minha filha. Reconheço que irei com curiosidade pois a festa vai ser num lugar de treino de alpinistas profissionais. Alpinistas profissionais? E no convite formal pedem para usarmos roupa confortável, informando que o equipamento de segurança vai ser fornecido no local. Pedem também o número do seguro de saúde (estamos na América do Norte) e perguntam ainda se temos alguma alergia a repelentes de insectos, leite de soja ou «tófu». Longe vão, pois, os tempos das minhas festas de anos na Rua Dr. Luís Bettencourt, em Vila do Porto.
Ao confirmar a nossa presença, esqueci-me que vivo em pátria de várias línguas e responderam-me num «africânder» com sotaque francês...
E assim fico (vou ficando) cada vez mais um produto da sociedade norte-americana.
E vamos ver o que acontece ao Benfica. Vamos.
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posted by Antonio Joao Correia @ 8:30 AM   |
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| 15/Mai/2004 |
| José Rodrigues Miguéis |
Lendo o Expresso de hoje vejo que se fez um filme baseado num dos melhores romances portugueses de sempre, o Milagre Segundo Salomé. Não entendo, nunca entendi a razão pela qual José Rodrigues Miguéis é um autor desconhecido em Portugal. Na terra das injustiças literária esta é uma das mais vergonhosas.
Por ironia cruel do destino lembro-me de ter ouvido, salvo erro num almoço açoriano, das cartas entre Miguéis e Saramago, a propósito de matérias editoriais, honorários, atrasos. Adiante...
Homem genial, escritor de talento viveu (depois dos trinta anos) e até morrer em Nova York. Desistiu de quase tudo para ser escritor, em português, a tempo inteiro. Vivia num apartamento minúsculo e escrevia muito. Vivia só para a escrita.
Por vezes imagino que o vejo numa destas ruas da América, e quase que lhe pergunto se teve de inventar uma memória de Portugal para se concentrar no respeito; como fazia, se teve a tentação de escrever em inglês, se conhecia aqueles restaurantes da 21 ou 22, se amou as mulheres de Lisboa para esquecer a solidão.
Exilado por vontade própria de uma pátria que por vezes é uma merda para quem escreve a verdade da consciência, recusou quase tudo em vida para ser fiel a uma ideia de arte literária. Era honesto, coisa que em Portugal ainda é mal vista.
Com Nemésio, talvez seja o único que escreveu um romance português no século XX.
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posted by Antonio Joao Correia @ 2:36 AM   |
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| 14/Mai/2004 |
| Teoria portuguesa |
O sol de Lisboa não deixa qualquer ilusão: a cidade é sensual.
Uma mulher reza de joelhos. Nosso Senhor apela a uma gestão criteriosa. O empregado fuma atrás do balcão. Dois cães magros olham para uma senhora muito gorda que cospe para o chão. Um habitante da Moldávia limpa carros em sítios como o Cacém - Portugal e este desenvolvimento criaram coisas como o Cacém - , dez velhos de um lar vão em romaria ao jardim zoológico, talvez tenham direito a um gelado com corantes e conservantes.
No Campo de São Francisco, Azores islands, duas mulheres desejam qualquer coisa. Oito emigrantes da América comem um chouriço assado com lapas guisadas, perto das festas, desta fé. Um bife tem um cabelo. Sete cozinheiros discutem a bondade de Champalimaud e a fundação para a saúde com a drª Beleza. Eusébio chora com mais uma homenagem. Carlos Lopes irá emagrecer. O Porto tem fome de vitória. O Euro 04, a elite dos partidos, alguns empreiteiros e temos a verdade.
Diderot deve estar outra vez na moda!
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posted by Antonio Joao Correia @ 5:35 PM   |
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| 13/Mai/2004 |
| Mais paróquia, o povo gosta |
Pelos vistos o grande facto político da actualidade açoriana é a luta pelas precedências protocolares na procissão católica-romana do Senhor Santo Cristo dos Milagres. Segundo se percebe o povo adora ver os «seus» em adoração religiosa nesta já banal e pornográfica mistura entre religião e política partidária regional.
A separação dos poderes é algo que até pode funcionar numa terra ainda muito pobre mas não quando em confronto com a manjedoura reinante.
A legítima fé de uns, a ignorância cultural de tantos, é aproveitada politicamente. Pois, grande novidade...?Ou não será este também um dos fundamentos de uma certa ideia de Autonomia, Deus Nosso Senhor e de fatalismo na desgraça? Uma espécie de fado açoriano sem fronteiras onde a luta de séculos pela sobrevivência se acomoda a pequenos expedientes. O que será «tal coisa» quando se pensa nas invasões argelinas dos séculos XVI e XVII ou nas fomes dos séculos XIX e XX?
Será irrelevante dizer que se apaga a produtividade da economia, sentidos de responsabilidade, de modernidade, honra, seriedade intelectual no desejo de uma sociedade mais justa, fraterna e solidária. Eu sei, blá, blá, blá...
Gere-se a democracia a partir da imagem de um Cristo regional.O povo gosta. Ponto final.
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posted by Antonio Joao Correia @ 5:06 PM   |
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| 12/Mai/2004 |
| Los Angeles |
Gosto da cidade, mas não abuso. Esta não é a minha aldeia da América profunda mas tem o «resto das ilusões» e umas ruas sem fim. Aqui também serei turista...Das ilhas do Pacífico...
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posted by Antonio Joao Correia @ 5:07 PM   |
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| 11/Mai/2004 |
| Mercados, Fassbinder e Buñel |
O pânico nos mercados é sempre mau conselheiro, mas hoje, com tudo a recuperar do vermelho, tive de fazer um certo exercício: a futura subida das taxas de juro na América, a porcaria da guerra no Iraque, o arrefecimento da economia na China beneficiam/prejudicam Portugal ou pelo contrário passam ao lado, como quase tudo ?
Algumas respostas:
-Portugal não tem uma economia ocidental, tem uma aparência de mercado, uma tasca com petiscos...
-Temos muito pouco empresários livres, com coragem;
-Rainer Fassbinder não é visto em Sintra;
-Buñel nunca filmaria numa bolsa norte-americana;
Quem nos ajuda ou será a ignorância o limite desta pátria de agentes comissionistas ?
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posted by Antonio Joao Correia @ 5:05 PM   |
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| 10/Mai/2004 |
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Las Vegas
Não é tanto o que Las Vegas nos dá, mas o horizonte que lembra aquelas pessoas que passavam no aeroporto de Santa Maria nos anos setenta. Viveria em Vegas desde que tivesse um Oceano de ilhas por perto, os meus amores, uma dose de solidão para me esquecer de jogar e alguma comida japonesa.
Não entendo o jogo a sério: uns homens com óculos escuros de mau gosto, duas loiras oxigenadas de corpos algo cirúrgicos, uns velhos de fatos em xadrez e eu a ver um mau jogo de póquer. A ignorância é tanta que pergunto que jogo é aquele e, a senhora «dealer», explica com ternura que é póquer 7 «stud» qualquer coisa...Desconfiam que vim da América profunda em busca de alguma mulher do Nevada...
Gosto do tamanho das camas dos hotéis; coisa estranha em Las Vegas, a cama parece ser o refúgio dos poetas.
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posted by Antonio Joao Correia @ 6:15 PM   |
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| 9/Mai/2004 |
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Mac is good
Fomos ver o «Super Size Me» e fiquei com vontade de ir comer uma saudável Big Mac com um batido de morango. Filme que tem um outro humor quando exibido numa América que se ri das suas próprias contradições e delírios. Imagino o mesmo tema mas com planos nas tascas de Alfama e na metrópole de Rabo de Peixe, tendo por base do vício, obviamente, um copo de vinho tinto de má qualidade. Em Ponta Delgada seria com a heroína que é vendida em total imunidade ou com políticos numa procissão religiosa católica para angariarem votos. Cada um terá, pois, o que merece.
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posted by Antonio Joao Correia @ 8:19 AM   |
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| 8/Mai/2004 |
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Sobre os crimes de guerra / sobre nada
Não conheço guerras limpas, justas ou com moral. As recentes fotografias do Iraque publicadas por jornais desta América profunda são a imagem de uma certa banalidade, daquilo que o homem faz ao homem.
A ideia de moralidade numa guerra é uma coisa assustadora e paranóica: de um lado os bons, do outro os preteridos de Deus. A vulgarização de palavras como liberdade e democracia dá para quase tudo. Claro que ninguém fala da ganância e do facto de Deus, para os nossos guerreiros, Ser um actor de série B, ao serviço da justiça em estilo «fast food».
Repare-se que são os jornais norte-americanos que publicam a face do espelho da crueldade, sem censura e ignorando pressões políticas ou receitas publicitárias do governo Bush. Em Portugal, com trinta anos de alegada democracia, ainda são poucas as fotografias dos massacres conduzidos pelas tropas portuguesas no antigo ultramar, das cores da corrupção, da ausência das responsabilidades políticas, da injustiça de uma pátria afogada em atraso.
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posted by Antonio Joao Correia @ 8:14 AM   |
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| 5/Mai/2004 |
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Feliz
Gosto de ver um dia assim: até as flores da minha casa desejam uma utopia. |
posted by Antonio Joao Correia @ 5:17 PM   |
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| 3/Mai/2004 |
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| Não sei mas acho que podemos tentar qualquer coisa, talvez inventar Portugal. |
posted by Antonio Joao Correia @ 5:28 PM   |
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| 2/Mai/2004 |
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O Benfica ganhou
A pátria fica contente. De repente Deus pode existir. Haverá ainda outras purezas por conquistar. A irrelevância das coisas não pode deixar qualquer arrogância, apenas a satisfação de uma matéria indizível.
Duas mulheres pedem perdão por desconfiarem de Deus, oito anões jogam golfe num clube de acesso restrito, dez ladrões vão para deputados da nação. Venderam-se algumas bifanas com óleo, uns frangos mais ou menos salgados, um soldado ficou travesti e nada consta sobre Nossa Senhora de Fátima.
Uma peixeira do Cais-do-Sodré, do tempo em que se poderia comprar peixe no Cais-do-Sodré, jura ter visto uma aparição da senhora dona Amália.
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posted by Antonio Joao Correia @ 2:49 PM   |
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| 1/Mai/2004 |
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A função do poema
No dia do trabalhador, que a minha cidade ignora por estar em greve, e depois de dar umas aulas avulsas irei passear junto a esta montanha, já com pouca neve. Levo os jornais do dia e preparo um recolhimento impossível, pois as minhas acompanhantes andam sempre à procura dos lobos e dos ursos alegadamente selvagens.
Viver nesta cidade, apesar de quase tudo, é também regressar à natureza das probabilidades.
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posted by Antonio Joao Correia @ 8:03 AM   |
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