| Resistir |
"Blog" livre, feito a partir do Oceano Pacífico, por António João Correia, um exilado na América do Norte. "Resistir" is Antonio Correia's free blog. From the Pacific Ocean... |
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| 29/Abr/2004 |
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| Sofia fazia anos hoje. |
posted by Antonio Joao Correia @ 6:29 PM   |
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Pastéis de nata
Na América mais profunda os pastéis de nata com qualidade são uma raridade; comemos hoje alguns numa pastelaria que será uma memória de um poema falhado de Pessoa, talvez até de um Cesário Verde mais impaciente.
Mergulhada na trampa vemos a pátria com algum humor: produziu a necessidade de um doce que se autonomiza.
No entanto, não gosto do excesso de sabor a limão, não existe canela por perto e os empregados são educados.
A rapariga ao balcão até poderia ser uma emigrante com desejos de vingança por aquele amor que nunca mais acaba. Ela não gosta de doces, prefere a vida assim e não serei eu a dizer o contrário.
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posted by Antonio Joao Correia @ 5:09 PM   |
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| 28/Abr/2004 |
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As "fugas" para o romance ?
Nemésio era essencialmente um poeta. O romance surgiu como a salvação do possível. Gastão Cruz, outra vez na moda dos jornais, é um romancista que escreve em forma de poema. De repente Prado Coelho tem razão...
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posted by Antonio Joao Correia @ 5:26 PM   |
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| 26/Abr/2004 |
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Equilíbrio da pátria / sem contágio
Isabel do Carmo, das bombas, assaltos e terrorismo lusitanos, é comendadora. Portas, do Independente sem limites é Ministro de Estado. O equilíbrio da pátria é fascinante.
E Saramago não poderá comprar um banco ? Lobo Antunes como cantor do hino ?
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posted by Antonio Joao Correia @ 6:12 PM   |
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| 25/Abr/2004 |
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Parte do povo que gosta do "atraso"/ sobre o pior de Portugal / “Top 10”
É a ideia que faço de parte do povo português que nada faz para alterar uma certa sina. Injusta, cruel, irrelevante, mas é a ideia que eu faço;
Não tenho solução, mas parece-me que a educação ajudaria muito. Verifica-se ao longo dos anos a derrota do civismo, de uma responsabilidade na assunção dos deveres da cidadania. Talvez com um povo mais educado o fenómeno fosse contrariado. Talvez.
Sem rigor científico notório, através de uma sondagem caseira feita aos amigos «estrangeirados» mais doentes com a pátria, publico o pior de «algum» Portugal:
10º As pessoas cospem para o chão, especialmente nas ruas e passeios;
9º Uma aberrante ganância de plástico das classes que frequentam centros comerciais como antes iam à missa;
8º Grande parte dos gestores são capatazes de expedientes com o Estado;
7º Ninguém paga impostos, a não ser uma minoria silenciosa;
6º Excesso de políticos profissionais que nunca tiveram um horário de trabalho;
5º Falta de sentido de humor;
4º Preguiça;
3º Pouco cultos;
2º Invejosos;
1º Pouco educados (lato sensu)
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posted by Antonio Joao Correia @ 5:05 PM   |
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| 24/Abr/2004 |
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25 de Abril
Tinha seis anos e no dia 24 de Abril de 1974 viajava de Bóston, Estados Unidos para a ilha Terceira, Açores. Aqui, 25 de Abril, deveria partir logo de manhã para a ilha de Santa Maria onde residia, mas o voo foi cancelado. Ao contrário do Baptista Bastos passei a revolução a dez mil metros de altitude e a ver filmes num velho Boeing 707. Não me lembro de ter chegado a Santa Maria, mas recordo não muito tempo depois a discussão no Café Mascote entre António, Conceição, Mário Fernandes, Raposo Marques e o padre Jacinto (os meus intelectuais favoritos em Vila do Porto).
Em Santa Maria sabia-se quem era do regime (quase todos) e os que sempre resistiram. A democracia foi-se fazendo à escala do desejo de uma ilha perdida. Para mim António e Conceição fizeram o PS (Conceição conhecia Zenha de Coimbra), Liberal fez o PPD, Violante o MES e Sofia apaixonou-se perdidamente por Sá Carneiro. Eu estava com a malta do Otelo por razões afectivas mas foi dedicação nunca correspondida (ainda que Otelo fosse um pouco revisionista...). Meses depois, em Lisboa, comprei o livro vermelho do educador Mao para mandar para um tio na América.
Muitas pessoas começaram, como que uma epidemia, a fazer yoga em Santa Maria. Partiu-se o muro que separava a antiga parte masculina da parte feminina da escola primária de Vila do Porto. A alimentação “macrobiótica” estava na moda. O restaurante do aeroporto continuava a ter um estranho pudim de pão. Uma “água-viva” (alforreca) atacou-me em São Lourenço. Eu ia "à missa" do padre Serafim, que para além de poeta genial, era meu primo.
No 1 de Maio de 1974 fui ao cinema do aeroporto, em Santa Maria. Conceição fez um discurso que Sofia jurou ter sido escrito por António...Que discurso! Até conseguiu elogiar, com justiça, o professor de direito Marcelo Caetano enquanto enaltecia a revolução que tinha lutado contra a decomposição da pátria.
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posted by Antonio Joao Correia @ 8:04 AM   |
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| 21/Abr/2004 |
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Elogio do capitalismo por um homem de esquerda
Foi no princípio que se percebeu a ideia de um amor. A senhora da mesa ao lado diz-me da filha que não teve, do que poderia ter sido se ela não fugisse. «Não creio em milagres, mas sabemos do que a falta de sensibilidade é capaz», ouve-se (ou imaginei que ouvi) da empregada que terá sido bonita em tempos.
No Pacífico, estamos protegidos de Portugal, mas não da memória e da ideia. A pátria destas mágoas...
Hoje não vi futebol, nem sei de mais nada. Fiquei-me pelos mercados, pelos mercados que nunca mais acabam, ou recomeçam na matemática possível. Um jurista financeiro perdido na América possível...
No Domingo irei à missa da pátria real, não tanto por Deus, pela fé que gostaria de ter, mas para ouvir falar português. Pode não ser muito, mas um homem fica com saudades.
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posted by Antonio Joao Correia @ 5:09 PM   |
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| 20/Abr/2004 |
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E o resto ?
As notícias da detenção(?) de um alegado bandido do futebol português dizem que ainda pode existir utopia na desgraçada justiça lusitana. Nos meus Açores, os senhores dos poderes pagam silêncios, compram tantas pessoas. Futebol subsidiado, pedofilia, partidos políticos e empreiteiros todos juntos, sem contas para prestar.
O povo sorri. |
posted by Antonio Joao Correia @ 5:12 PM   |
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| 19/Abr/2004 |
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Erro de Espanha
Não está em causa a óbvia legitimidade jurídica de retirar tropas assustadas de um atoleiro de morte mas a forma de animosidade que traduz agressividade saloia contra a América que paga com sangue uma certa versão de liberdade europeia. Zapatero é pouco viajado, imitando até Bush numa certa ideia de territorialidade versus soberania. Espera-se agora que a América se farte e deixe a segurança da Europa nas mãos de quem tiver vontade.
O problema não é a guerra no Iraque mas a falta de pudor da condição humana quando dominada pela ideia grotesca de sobrevivência à custa de expedientes políticos...Zapatero está mais preocupado com os eleitores espanhóis de que com Hegel...Pois.
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posted by Antonio Joao Correia @ 5:46 PM   |
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| 18/Abr/2004 |
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A perseguição e a liberdade
Será que existe alguma diferença na perseguição política se ela é feita através da direita ou através da esquerda ? Nos Açores de 2004, Portugal, não.
Nem se distingue a sabedoria do povo de joelhos que vê, percebe e tenta aproveitar qualquer coisa, talvez pela miséria do passado. Torga, provavelmente um homem demasiado grande para Portugal, disse uma vez que as verdadeiras vítimas do 24 de Abril tinham um pudor em celebrar a liberdade. Os outros, que sempre estiveram em silêncio, apareciam festivos e revolucionários.
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posted by Antonio Joao Correia @ 4:43 PM   |
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O diário das coisas
Levo o teu olhar para ali, não tão perto, mas ainda assim para ali;
Vê a matéria invadir o lugar que não existe, invade tudo
Atrás do desalento, aquele ali, tão perto
Apura o conhecimento do amor, aquele amor;
Perde o desespero do poema, talvez
estranhes o teu olhar, como se as coisas fossem
Parte no sentido da metáfora.
A forma como a luz te reflecte não deixa espaço.
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posted by Antonio Joao Correia @ 9:03 AM   |
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| 16/Abr/2004 |
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Um dia português
É verdade, fomos a uma tasca portuguesa do Oceano Pacífico. Calendário do Benfica na parede, cheiro a fritos, clientes que falam alto, televisões em vários canais, vinho tinto de qualidade duvidosa e aquela cultura que afasta saudades e promete distância. A empregada vira-se para o patrão, diz uma piada e acomoda os seios gigantes. Estão todos felizes. A minha mesa desespera, olham para mim com melancolia. Isto não é Portugal, mas eu juro que é também um Portugal que não acabará.
O ambiente ultrapassa a falta de qualidade dos restaurantes em São Miguel ou no Verão do Algarve. Parece um bordel da Andaluzia mas forrado com a pacatez da América do Norte. Peço um sumol de ananás e a mulher dos seios exagerados grita, «eles afinal são portugueses, este aqui até tem pronúncia de Lisboa!». Explico que sou açoriano a tempo inteiro, mas ela não acredita e diz que eu não tenho aquele ar de bruto que caracteriza os açorianos. Acho que vou explodir. Estou com colegas coreanos e chineses que adoram estas ironias da civilização. A RTP internacional emite um telejornal dos Açores. Deus nos ajude. Irei vomitar.
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posted by Antonio Joao Correia @ 6:22 PM   |
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| 15/Abr/2004 |
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Santo Cristo dos Milagres, na ilha de São Miguel ?
Que fez Cristo para merecer uma festa assim, numa ilha que também tem gente ainda muito ignorante, miserável, hipócrita, que tolera e fomenta por actos ou omissões a corrupção, a pedofilia, o roubo, o furto, a inveja, o oportunismo, o atraso de séculos ?
Eles vão por fé. Mas eu sei que eles vão por vaidade e pelos votos.
Desenvolvimento e progresso ?
Como provar que Cristo é inocente?
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posted by Antonio Joao Correia @ 3:22 AM   |
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| 14/Abr/2004 |
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As consequências do fascismo nos Açores, etc.
Temas pouco estudados.... A forma como os fascistas portugueses encontraram dedicados colaboradores nas ilhas e controlaram quaisquer tentativas de oposição não folclórica até aos anos setenta; a estrutura mental das ilhas onde delatores e cooperantes regionais pagos pela PIDE (depois do 25 de Abril) tornaram-se esquerdistas da primeira linha, democratas de uma vida toda...
Outro tema ignorando é a forma como o povo se adequa e respeita modelos fascizantes desde que seja o vizinho a ser perseguido e a que vergonha seja um conceito de moralidade duvidosa. O Senhor Santo Cristo estará sempre presente...
Entendo que o que temos hoje, para além da pobreza, miséria e ignorância de um atraso cultural é também o resultado de um acomodar que está no inconsciente açoriano que não emigra. Para alguns amigos meus será culpa de um catolicismo sem evangelho que tomou conta dos Açores durante séculos, para outros é a natural corrupção de quem precisa da política profissional para alimentar a família.
Os políticos de sucesso apenas reflectem o que o povo deseja ?
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posted by Antonio Joao Correia @ 5:20 PM   |
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| 12/Abr/2004 |
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Mude-se o povo / Teoria da democracia/ Mais contributos para o ressentimento
Sem Brecht por perto, imagino a substituição do povo quando não gosto dos resultados eleitorais. Então estas bestas vão eleger este gajo?. Mas eles não sabem. Ou sabem e não querem saber. Ou eu não sei.
Se o povo gosta de políticos ignorantes, corruptos, espertos; se o povo gosta da manipulação, dos milagres, das procissões e da falta de higiene, então é favor que alguém mude o povo.
Que seja, com delicadeza, a maçonaria a mandar na choldra, já que manda na justiça, nas oportunidades, nas colónias mentais, jornais, televisão, na psicose masturbatória em que Portugal e Açores se tornaram. De tempos a tempos, podemos até substituir a maçonaria pelo Opus Dei. O povo gosta de alternância democrática.
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posted by Antonio Joao Correia @ 8:46 AM   |
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| 10/Abr/2004 |
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A verdade sobre Dogville de Lars Von Trier
Ontem ao jantar, com esta América profunda em cenário, por sete votos contra quatro, aprovou-se que o filme Dogville tinha sido inspirado na população amiga que ocupa, segundo se diz, o poder político na Região Autónoma dos Açores.
«São eles, são eles», gritei em delírio.
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posted by Antonio Joao Correia @ 9:31 AM   |
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| 9/Abr/2004 |
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Portuguese dream
Iremos ao “Macdonalds”, mas como hoje é sexta-feira, ficará mal comer carne, daquela carne que eles têm. Podemos pedir uma coisa qualquer de frango, acho que frango não é carne, pelo menos daquela carne mais efusiva. De repente ainda terão aquela invenção lusitana, o “Mac porco”, que sendo de carne também não é assim tão óbvio. As batatas fritas é arriscado, pois sabe-se que vegetarianos fanáticos provaram que continham óleo de origem animal, ou banha para os portugueses que vieram do país real.
Não sei, talvez o “ Mac filete” seja a melhor hipótese, apesar de não se saber identificar o peixe que esteve na base científica, gastronómica, desta revolução americana dos anos cinquenta. Um “Mac filete” e Deus, Mel Gibson, Nossa Senhora de Fátima, o homem que escarra para o chão na rua, o funcionário das finanças corrupto, o político com caspa, a amante do andar de cima, o barbeiro, sete anões em São Bento e dois curiosos ficarão felizes.
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posted by Antonio Joao Correia @ 11:06 AM   |
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| 7/Abr/2004 |
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Aconteceu em Lisboa
Em Lisboa, onde também cresci, havia uma mulher que enlouqueceu de amor. De amor entenda-se, com medicamentos, telenovelas na altura do jantar, ajudas de consultores espirituais, romances de cordel, passeios nos centros comerciais e uma tendência para observar a realidade através de uns carros de choque da Feira Popular.
Não se sabe como. Também não interessa. Um dia, a mulher do amor, chegou ao Rossio e insistiu que teria de ser recebida, formalmente, por uma outra mulher, alegadamente pretendente ao trono e que venderia flores para disfarçar.
Falaram dos amores perdidos, do que aprenderam, do ódio das pessoas infelizes, da solução das paixões. E foi tudo.
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posted by Antonio Joao Correia @ 5:17 PM   |
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| 6/Abr/2004 |
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Metamorfose regional
Acordei, lavei-me e de repente era parte de um livro de José Saramago. Melhor dizendo era o próprio livro só que disfarçado com um corpo, nem gordo nem magro, provavelmente não alto ou baixo, talvez até nem sequer feio e bonito. Uma espécie de corpo anónimo que lê jornais, bebe café, discute futebol e sonha com uma revolução social se tivermos tempo ou paciência. Uma espécie de homem mais ou menos moderno, teria eu próprio lido numa publicação de antigas religiosas que esqueci o nome.
O corpo era um caso de anatomia típico, sem páginas, com poucos números, nem se detectando capítulos ou enredos complexos. Claro que existiam poucos pontos, uma ausência de vírgulas, parágrafos do tamanho de elefantes e uma sensação de profundidade literária que só a modéstia ou a falsa percepção da realidade poderá evitar que comente.
Nunca ninguém reparou. Ninguém, nem sequer os mais preparados críticos literários. Apenas elogios, criticas rancorosas, pedidos de dinheiro emprestado, umas entrevistas sobre nada, uns comentários sobre a origem da maldade humana, e obviamente a frieza de um «best seller».
E, como nada aconteceu, fui à minha vida.«Olha, ali vai o livro do Saramago», e eu sorria, sonhando com poemas de amor.
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posted by Antonio Joao Correia @ 8:06 AM   |
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| 3/Abr/2004 |
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Rotundas
Na ilha de São Miguel, as rotundas nas estradas são feias, mas as pessoas gostam. Adoram o mau gosto, uma certa forma de se inventar a piroseira regional. Por vezes chamam um padre para benzer a rotunda, uma banda de música, jornalistas famintos e um mar de gente.
Não gosto de rotundas. Pelo menos destas rotundas.
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posted by Antonio Joao Correia @ 10:20 AM   |
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| 2/Abr/2004 |
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A profissão de amante
Na leitura dos registos dos mortos, e ainda existem cemitérios públicos, estará a carta sentida e algo inventada nas emoções de um poeta amante que se perdeu num labirinto de novelas que não existiam. Um Quixote da tecnologia, com “email”, mas que se perdeu em leituras que apenas reflectiam espelhos, de amores e coisas assim.
Um dia, numa fronteira, perguntaram-lhe a profissão. Respondeu com calma, numa entoação poética que libertava a confiança de um império: «sou um amante». O interrogador, com a arrogância dos ignorantes, ainda arriscou um desenvolvimento: «amante de quê?».
Disse ainda: «é, sou amante, depois de vários anos como poeta, reorganizei a carreira e decidi enfrentar o mundo dos amantes como profissional a tempo inteiro». |
posted by Antonio Joao Correia @ 5:00 PM   |
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Europa e Portugal?
Habitualmente a defesa contra os homicidas do terrorismo internacional fica a cargo dos Estados Unidos. Alguma Europa dita civilizada fala mal, «isto e aquilo», contra todos os defeitos e injustiças do mundo. Tudo bem, mas entre a leveza da democracia americana e a arrogância de quem nada faz por medo ou oportunismo, a escolha de carácter parece certa.
No caso português, a nojenta elite de políticos profissionais que tomou/capturou o aparelho de Estado é cobarde, fraca e essencialmente pouco culta. Mas, é nessa elite de pessoas, companheiros e sócios que nunca tiveram que trabalhar na vida que o povo que vota se parece rever. Existe como que um gosto pela esperteza, o golpe baixo, o atalho, o grotesco da incompetência, o desmazelo no exercício da função pública.
Até quando ?
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posted by Antonio Joao Correia @ 10:46 AM   |
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| 1/Abr/2004 |
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O pássaro da luz
Vi um pássaro morrer em forma de poema. Tinha as características de pássaro mas parece que estava endividado com romances amorosos sem fim. Não se sabe bem, existem várias teorias, estudos, teses, invenções, decretos. Que era pássaro parece assente, que morreu em forma de poema também. A dúvida residia nas dívidas dos romances, obviamente amorosos. Que teriam fim diziam uns, que nunca tiveram término, juravam outros.
Pássaro da luz certamente.
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posted by Antonio Joao Correia @ 8:09 AM   |
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