Resistir

"Blog" livre, feito a partir do Oceano Pacífico, por António João Correia, um exilado na América do Norte.

"Resistir" is Antonio Correia's free blog. From the Pacific Ocean...

Correio
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31/Mar/2004
Os donos / ficção regional

No estádio de futebol da pátria podem-se ver umas senhoras que ficam durante mais de duas horas dentro dos carros enquanto os amantíssimos esposos vão ver a bola rolar. Umas quase que dormem, outras fazem umas rendas que nunca mais acabam. Vi gente que faz piqueniques ao pé das portas do estádio, certamente os mesmos que encontram aqueles lugares ao pé da estrada para comer melancias e melões nos dias quentes de Verão. Imagino que irão em excesso de velocidade com um palito dos dentes na boca e a mandar calar os filhos.

Nas festas as mulheres juntam-se às mulheres e falam. Os homens falam com os homens.
Um político na televisão manipulada e controlada (como a RTP dos Açores) promete vomitar em cima de sete anões siameses. Outro político jura fazer malabarismos com nove fetos que resultaram de um aborto feito em directo a partir do vão de uma escada.

Numa procissão quatro mendigos levam ao colo um Presidente e comem umas migalhas que um andor deixa cair. «Vossa Excelência não se esqueça que uma camisa azul resulta sempre bem em televisão», diz um papagaio alcoólico condecorado por altos serviços à maçonaria.

O cemitério é invadido por um centro comercial gigante que foi aprovado por maioria em delírio. Agradece-se que a actividade funerária não incomode o êxodo do povo.

As senhoras que esperam pelos maridos no futebol também vão à praia molhar os pés. Um polícia recebe um suborno por não fiscalizar alimentos estragados. Nosso Senhor aparece numa Avenida e diz que os fiéis têm de contribuir para o partido.
posted by Antonio Joao Correia @ 6:11 PM  
Estado puro

Habitualmente no supermercado onde vou nunca vejo açorianos, perdidos como eu nesta América profunda. Hoje vi três velhotes simpáticos, talvez com mais de oitenta anos: a mulher carregava um carro com plásticos, salsichas em saldo, mais de duzentas “costeletas” de porco, quilos de papel de prata, detergentes, pimenta nuns baldes e cestos de papel em quantidade industrial. Os dois homens falavam de uma vizinha, que será uma porca, dos filhos que são mal-educados e de não fazer sentido colocar flores na parte de trás de uma ermida que não identifiquei.
De repente eles percebem que são observados e andam mais depressa. De repente percebo que sou observado e provavelmente identificado como açoriano emigrante (descobri que tinha ar de açoriano uma vez em Las Vegas). Nada dizemos. Eles continuam na sua vida. Eu paro e quero fazer qualquer coisa. Talvez me apeteça efectuar um rapto e devolver a lógica de um povo nómada às ilhas.
Temos tanta coisa para dizer e provavelmente foi a última vez que nos vimos (eu deveria ter pedido um abraço, mas não sei, não sei se eles perceberiam).
posted by Antonio Joao Correia @ 11:47 AM  
A revelação de Deus

Portugal gosta de um Deus desorganizado que se desvenda no último minuto: o Deus do Milagre impossível. Um Deus que reflecte, obviamente, a pátria. Deus que não tem questões filosóficas em trabalhar com ajudantes de luxo em possibilidades geniais. Deus merceeiro que nos enviará a conta à primeira oportunidade.

Duas mulheres rezam na porta do Convento da Esperança, em Ponta Delgada, São Miguel. Quatro prostitutas esperam por clientes no jardim em frente. Dois drogados falam no desenvolvimento, oito alcoólicos mentirosos bebem num palácio do povo.

A corrupção dos governos não é investigada. Um bispo recebe dinheiro e fica em silêncio. Todos rezam em penitência. Outros ficam com cancros e esperam.

Um homem atravessa a rua e nada faz. Fica parado a ver várias crianças serem violadas com a cumplicidade das autoridades.

Eles são felizes assim.
posted by Antonio Joao Correia @ 8:06 AM  
30/Mar/2004
Negócios públicos de sucesso

Crianças são abusadas. As autoridades e muitos poderosos tentam silenciar durante anos. Uns jornalistas com coragem investigam. Existe uma notícia nacional. Finge-se que existe justiça devido às eleições. Depois, as famílias, parte interessada no fornecimento de carne, mudam de opinião, certamente sem pagamento privado ou condição.... Abusos foram invenção da comunicação social. Tudo ficção. Nojo. Podridão de um sistema corrupto até à medula. Aconteceu em São Miguel em 2004. Nada mudou.
posted by Antonio Joao Correia @ 5:05 PM  
O Ruanda de Clinton ?

Será a versão do mito em forma de ataque ou a verdade do tempo ?
O que é a verdade ?
A morte de um "ocidental" vale mais do que... as mortes de milhões de outros ?
posted by Antonio Joao Correia @ 12:45 PM  
29/Mar/2004
A estrada para Cima-da-Rocha, em Vila do Porto

A estrada para Cima-da-Rocha tinha dois significados: era o caminho para o porto quando não havia porto e era o princípio da memória da ilha que se desenhava por entre ruínas. Pormenores não banais espelhavam a verdade: casas senhoriais arruinadas pelo tempo, pescadores necessitados com dezenas e dezenas de filhos, três ou quatro tabernas sagradas, a confiança sobre um passado ainda pior. Agora, os patetas do rigor, chamam-lhe zona histórica (será sempre Cima-da-Rocha, mas eles nunca irão perceber).
O drama, o drama mais sério, é que é impossível escrever sobre a estrada para Cima-da-Rocha sem melancolia. Era preciso ter sentido os piratas da Algéria ficarem nervosos; os Cruzados em busca do novo mundo; a escola do professor Luís Morais.
Apenas vi algumas crianças pobres, descalças. Estaríamos em 1977 e eu era Sandokan, da Malásia, e sonhava em salvar o mundo.
posted by Antonio Joao Correia @ 5:22 PM  
28/Mar/2004
O banco com nome

Esta minha praia tem uma boa tradição: por um donativo para associações sem fins lucrativos compra-se o direito a dar o nome a um banco de praia e , assim, fazer uma homenagem algo eterna. Este aqui ao lado é de uma Linda Smith ( 1897-1991). Que pensou ela nos dias em que aqui se sentou ? Será que foi o amante secreto que colocou a placa na madeira do banco ? Será que teve filhos ? Terá visto o comboio que vinha do Sul ? Tantas perguntas e eu nem sei a forma de sorrir desta mulher.

Aterra um pequeno hidroavião. Vou beber café. O vento destapou um sol sem benevolência. Irei.
posted by Antonio Joao Correia @ 6:27 PM  
A paróquia e o cio

O orgasmo do tédio estará este ano na pré campanha para as eleições regionais. Na Madeira temos uma chuva de obsessões previsíveis e nos Açores a mais envelhecida (não em idade, obviamente) classe de políticos profissionais (empresariais/ empreiteiros?) que existe a Norte de África. O suborno mental, o delírio perante um povo que já passou por quase tudo não aparenta influenciar quaisquer limitações morais.

Vejo o futuro destes casos de sucesso regional como reportagens notáveis da antropologia. Tenho, no entanto, gente amiga mais cruel que jura que se tratam de animais com cio.
posted by Antonio Joao Correia @ 8:47 AM  
26/Mar/2004
Um outro poema (conto)

Partirei hoje para a ilha. Nasci numa e agora navego entre barcos que me acordam das memórias imaginárias. Fui também poeta, daqueles poetas modernos que não sabem rimar.

Uma vez vi um poema decente nado morto; não sendo tarde para experiências, fiquei a meio caminho. Tentarei outra vez.

Ela está ausente.

Desde que a praia engoliu o desespero da verdade, para além de morreremos, amarramos uma data para observar o delírio da eternidade.

Ela não está ausente de propósito, apenas não sabe as consequências das árvores que arderam, da estrutura da matéria. Não deverei tentar muitas vezes, o poema cansa na expectativa da leviandade.

posted by Antonio Joao Correia @ 5:40 PM  
Frase

José Saramago é o nosso Mateus Rosé.


posted by Antonio Joao Correia @ 7:22 AM  
25/Mar/2004
Culpa solteira

As notícias sobre um caso judicial em curso ( que dão razão à Air Luxor) teriam, num Estado de Direito democrático, consequências políticas sérias e de investigação criminal.

Em Portugal e nos Açores a culpa da alegada asneira na gestão do erário público morre solteira e a manjedoura do orçamento também público paga quase tudo: incompetências, silêncios, compadrios, arrogâncias, faltas de cultura, etc.

Quem foi responsável ?
posted by Antonio Joao Correia @ 5:54 PM  
24/Mar/2004
Do mundo à «Reper»

Por vezes este espaço recebe visitantes mais ou menos inesperados. Desde gente amiga, menos amiga, acidentes de percurso, curiosos, leitores perdidos, algum espião ao serviço da «interzone», até chegar à nossa .... REPER, representação portuguesa permanente em Bruxelas...Coisa estranha...

Adivinho que qualquer dia, por entre estes espelhos, ainda recebo a visita de Jorge Luís Borges (quando estive em Buenos Aires, estivemos ausentes).
posted by Antonio Joao Correia @ 1:30 PM  
23/Mar/2004
Sugestão para os piores criminosos

Podem, pelos vistos, vir exercer a sua nojenta actividade nos Açores, onde as alegadas vitimas recebem dinheiro e desistem da justiça, já de si manipulada politicamente. Um sucesso das práticas sociais políticas. Ainda veremos uma festa pública com as vitimas de crimes sexuais e os predadores, com influências.
Apetece vomitar.
posted by Antonio Joao Correia @ 8:00 PM  
Elogio da esperança

Como ontem existe um amanhã de todos os clichés em Portugal. Do funcionário manga-de-alpaca ao polícia que mata e é absolvido, passando pelo escriturário, o médico que passa atestados de favor, o zeloso comerciante que não paga impostos, o suborno esperto, a manipulação política, a justiça corrompida, a maldade. Mas existe aquela esperança. Talvez a que fez com que Camões fosse emigrante a maior parte da vida.
posted by Antonio Joao Correia @ 7:58 PM  
Sobre a política açoriana / ideias soltas

No tempo de Guterres existia um medo quase fanático de afrontar o governo da república por parte do governo regional dos Açores. Não tenho certezas absolutas: desde o respeito algo maçónico a chefes partidários, obediência ditatorial, relação colónia versus administrador da colónia, preguiça, complexos freudianos de autonomistas recentes, temos várias hipóteses com maior ou menor credibilidade.

Com o governo de direita nacional a situação (relação) inverteu-se, ainda que atenuada nos últimos tempos por razões de oportunismo eleitoral; passou-se a reclamar com ansiedade excitada por tudo e quase nada: com razão, sem razão, apenas por orientação política, curiosamente também através de recados de Lisboa.

Dirá a direita açoriana que tal se deve à falta de alicerces autonomistas do PS e a um certo pagar de dívidas em relação ao patronato socialista de Lisboa. Dirão os socialistas que tal subordinação a Lisboa servia os interesses dos açorianos e que não foi assim tão exagerada.

Vários fenómenos vieram complicar qualquer previsão: a coligação regional entre PSD e PP, alegados casos de pedofilia junto de pessoas ligadas ao PS, o desgaste da coligação nacional, a desastrada caminhada de Ferro Rodrigues.

A coligação (que Álvaro Dâmaso tentou em 1996, sendo quase crucificado) reúne adversários antigos. O velho CDS pareceu até, em tempos, uma agência angariadora de quadros (tipo pequeno burguês) para o PS...Vejam-se quantas pessoas transitaram do CDS directamente para o PS a tempo de apanharem o poder. Mas, resulta de um pragmatismo assustador e se as eleições fossem matemática, teríamos um previsível vencedor. Falta no entanto perceber se o desgaste do PS é sério e se estão comprometidas as habituais técnicas regionais de manutenção do poder democrático (manipulação da RTP-Açores, jornais com publicidade oficial, empregados públicos, sentido de voto da igreja, subsídio dependentes, ameaças, etc.).

Os alegados casos de pedofilia, que muitos já saberiam mas só se preocuparam quando tal se tornou notícia nacional, afectaram sobretudo a credibilidade do PS numa área onde tinha obrigação de ser competente: a área social. Para mim não foi surpresa, pois vi o que não fizeram em termos socais no dramático caso de muitas famílias em Rabo de Peixe, onde até estragaram um estudo sério do senhor Prof. Bruto da Costa (como fui eu que convidei a Universidade Católica em 2000, sei a forma miserável como nada foi feito, adiante).

A coligação nacional de direita navega, por seu lado, entre um idealismo severo e a arrogância de perceber que a oposição com vocação de poder está destruída, seja pelas notícias da alegada pedofilia, seja pela incapacidade em se livrarem de um radicalismo exaltado. Ninguém parece gostar do governo de direita, mas ninguém se revê na oposição.

Acredito que as eleições Europeias vão ser no caso açoriano, por mais que se diga o contrário, as primárias das regionais. Veremos. Um quase empate é o prognóstico mais certo, o que ainda confundirá mais....

No entanto, o que mete pena, é a falta de inovação nos discursos. A qualidade política é fraca, ao melhor estilo de uma paróquia de aldeia pouco culta. Sente-se que é mais uma guerra de clãs, famílias, que propriamente uma discussão elevada de ideias, sobre o futuro dos Açores.

Nos anos que trabalhei em política tive várias experiências agradáveis, conheci muita gente que gostava dos Açores desinteressadamente, mas também vi que a política pode ser muitas vezes o meio para o pior que existe na condição humana. E é o silêncio miserável daqueles que viram, perceberam o que se passava e nada fizeram para mudar que me enjoa mais.
posted by Antonio Joao Correia @ 5:53 PM  
21/Mar/2004
Praia

Passei parte deste Domingo na praia, a correr de um lado para o outro. As ondas eram ridículas, imitando furacões arrependidos que se converteram à banalidade do vento. Na areia consegui ler.

Será este ano que vou aprender vela? Será que o Oceano está preparado para mais um açoriano a tempo inteiro?

De tanto rir, acho que fiquei a pensar no que deixei de fazer. A minha filha diz-me ainda que o Brad Pitt é «hot». Uma pessoa bem tenta preparar-se, mas é como ver Deus: nunca se sabe muito bem.
posted by Antonio Joao Correia @ 6:44 PM  
20/Mar/2004
Na varanda

Tenho corvos gigantes na varanda do meu quarto de dormir. Com calma foram-se habituando a uma velha cadeira de madeira e, a partir das seis da manhã, passam parte do dia em amena conversação, presumo que sobre literatura, futebol, mulheres, política e restaurantes decentes (como se sabe, os únicos temas que interessam). As gaivotas ficam distantes, num jardim público do outro lado da rua: olham os corvos, mas nada fazem, preferem tentar algum caixote de lixo com fraquezas.

Esta manhã, a minha cadela, que é uma «labrador» ainda mais excitada que os «labradores» mais nervosos, decidiu reclamar direitos territoriais sobre o espaço da varanda. Atacou, ladrou, mas dos corvos, apenas a leve indiferença de quem sabe que o destino das coisas é o que é. Mais tarde, vi a reconciliação: corvos e uma cadela, a dormirem, sonhando, provavelmente com gaivotas.
posted by Antonio Joao Correia @ 9:06 AM  
18/Mar/2004
Café português

Hoje, de manhã, com saudades de uma certa pátria decidi ir tomar café com ambiente psicológico dos compatriotas possíveis neste Oceano Pacífico.

O café era terrível, com sabor a humidade e uma chávena que deve ter sido utilizada na reconquista de Bafatá. Deve existir algo(uma maldição?) com os cafés portugueses da diáspora no Pacífico: parecem tascas de Marvila, nem faltando o cheiro a fritos da véspera e o poster da rapariga com os seios generosos.

Uns falam de «José Mourinho» e do sistema; outros de um torneio de futebol para comemorar Camões. Dois mais novos parecem comer tremoços com cerveja preta (seriam oito horas da manhã) enquanto vários esperam vez para jogar bilhar ou matraquilhos ( é o Belenenses contra o Sporting).

Um calendário cheio de nódoas de gordura com Nossa Senhora de Fátima apresenta o mês.
posted by Antonio Joao Correia @ 5:21 PM  
17/Mar/2004
Uma ideia de amor

Foi como uma certa chuva que não passa perto do destino. Ela disse a verdade, encontrou um caminho aceitável e, fez dos nossos sonhos, a realização que poderia ter sido.

Os limites do afecto devem surpreender. Seremos este amor e todos os que aqui não desistirem.

Preciso de tempo para recordar o passado. Pena não termos sido aquele amor, amor.

Não creio nas outras coisas. Duvido de Deus e tenho pouca fé nos homens; vi do que são capazes,

Seria capaz de te amar, como tu me amas, amor, este amor

Mas, não sei. Não sei de quase nada. Vejo tudo, mas não sei.

Seremos aquilo também, o outro amor possível, amor, este amor
posted by Antonio Joao Correia @ 7:31 PM  
15/Mar/2004
O olhar de uma certa maneira (Açores?)

Vejo a hipótese como a questão de um certo poder sobre a utopia açoriana. Partiram, chegaram e desejaram Deus, como quase tudo. Não havia mais ninguém: ficaram em solidão com o Espírito Santo.

A mulher levanta a saia e sacode as migalhas da blusa azul. Açoriana nascida nesta América nem saberá que foi bonita em tempos.

Rezam com aflição: a festa vai começar. Os mais velhos irão ver um filme sobre Camões.

Um homem pergunta-me pela Guiné, como se eu tivesse cara de quem tivesse estado na Guiné a combater pelo império.

As crianças não falam português. Uma avó de preto, pede para ver a telenovela venezuelana.
posted by Antonio Joao Correia @ 10:43 PM  
14/Mar/2004
Um Zapatero português (contributo para os clichés do dia) ?

Que existe não tenho dúvidas. Que não teria hipóteses na actual manjedoura em que se tornou o PS também é verdade.

A questão é outra e mais profunda. Falta paciência para interpretar aquilo em que Portugal se tornou.

E, claro, a opinião pública em Espanha existe, é mais civilizada, educada.

Aznar foi um Primeiro-Ministro sem surpresas, mas esqueceu-se que o aproveitamento da desgraça alheia para fins políticos é um risco, para além de uma nojeira absoluta ( só nos Açores parece resultar com o aproveitamento político na tragédia da Ribeira Quente, no sismo do Faial...por parte do PS).
posted by Antonio Joao Correia @ 2:18 PM  
A novidade em versão contemporânea (F-16 na Lusitânia)

Leio que a segurança contra o terrorismo, em Portugal, para efeitos de propaganda saloia, vai ser feita por «aviões F-16»... A notícia não diz que foram adquiridos à custa de uma base militar que fica nos Açores...Pois. Também nada se diz sobre a queda para o ridículo.

A pequenez tem vantagens: os «maus» quando desejarem atacar irão, presume-se linearmente, evitar uma pátria algo confusa. Pátria de políticos com pouca higiene. Piolhos e caspa fazem as delícias do povo anónimo.

Será irrelevante dizer que os bairros miseráveis dos subúrbios de Lisboa estão mais seguros com os «aviões F-16».

Será isto desenvolvimento ou a novidade em versão contemporânea?
posted by Antonio Joao Correia @ 8:49 AM  
12/Mar/2004
Ficção sobre Portugal, Açores e o resto (teste para leitores aventurosos, maiores de 21 anos)

Um dos países mais atrasados do mundo, em quase tudo. Resta-nos a poesia, uma esperteza de improvisar e, obviamente as responsabilidades diluídas e a esperança de que algo poderá ser diferente.

Lá por nos amarmos não quer dizer que sejamos cúmplices destes silêncios.

Em Ponta Delgada, de manhã, junto à Matriz, vários homens bebem com o pequeno-almoço aguardente de uma garrafa verde.

Em Lisboa, na Rua Morais Soares, duas senhoras de idade, cospem para o chão.

Um condutor de um carro muito velho, no Porto, quase ao lado da Avenida dos Aliados, insulta outro condutor por ele ter um autocolante do Benfica.

Um político qualquer ignora a pedofilia durante anos e prega o desenvolvimento. Outro persegue ignobilmente quem defende uma versão qualquer de democracia. Anos depois falam em «programas para as crianças desfavorecidas».

Dois polícias pedem a identificação a quatro romenos, um deles com um cachecol de Nossa Senhora de Fátima.

O governo regional da terra, oferece milhões a quem diz que sim e baixa as calças (expressão terrível, mas certa). Muda a lei a quem se silencia. Banalidades com que ninguém se importa.

No Alto de São João, em Lisboa, um padre benze um defunto sem nome.

As casas de banho do aeroporto de Lisboa cheiram mal, mas as da Brasileira, no Chiado, ainda são piores.

Em Vilamoura insisto que sei falar português; pelo menos em Portugal deixem-me ser outra coisa qualquer

Ainda nos meus Açores temos também um governo errado, com cúmplices que sabem que estão errados mas têm medo de dizer o que todos perceberam.

Dizem que um povo ainda muito ignorante vota em quem lhe pagar mais, mas eu não acredito. Não posso.

Vão todos na procissão religiosa, confessados e com inveja. Gente invejosa com a podridão que não importa. Eles não existem.

Outros escondem a sexualidade.”Oh”, deixem-me escrever sobre a sexualidade ressentida desta gente e as consequências públicas, uma violência de vómito em versão de romaria da redenção.

Vejo mulheres masturbarem-se em frente a figuras religiosas, homens excitados quando pensam no Divino Espírito Santo, nos milagres. Sexualidade de milagres. Um Cristo como símbolo sexual de gerações de virgens ressequidas.

No Campo de São Francisco duas prostitutas acalmam as notícias do dia; com o rendimento mínimo garantido podem abortar ilegalmente num médico privado que se diz contra a revisão da lei que pune criminalmente o aborto.

Na cerimónia solene do palácio, os mais importantes são os últimos a chegar. A televisão, a rádio e os jornais obedecem, com saliva a cair da boca, às ordens.

O desenvolvimento é absoluto. Dois homens praticam sexo oral por detrás da cortina. Antes falaram nos valores da moral e foram em romaria com Bispos que se dizem socialistas.

Um anão chicoteia uma mulher muito gorda que pede um subsídio para iluminar a campa da Natália Correia; ou seria talvez da Amália Rodrigues.

A fiscal da inspecção económica recebe dinheiro para silenciar as queixas contra aquele hipermercado que vende produtos estragados. Também deram dinheiro para o partido.

O amianto causa cancro, mas não aqui. Aqui obedece-se a Lisboa, de joelhos, para não ofender o partido que manda na representação insular.

Um carro não para na passadeira para peões e mata alguém. Sem consequências. Um miúdo alcoolizado mata um velho, sem história e pobre, na rua.

Dois filósofos matam um cão com paus. Um enfermeiro dá morfina a doentes terminais numa casa de saúde, sem receita médica.

Médicos toxicodependentes nos serviços de urgência, pedófilos que testemunham em tribunal como peritos. Magistrados que se servem do sexo dos pobres para acusarem e libertarem criminosos, com habilidade.

O povo está feliz.
posted by Antonio Joao Correia @ 6:41 PM  
O sentido das coisas

O terrorismo na sua expressão mais crua lembra, entre outras coisas, a nefasta consequência das possibilidades da omissão.

Esquecem-se, nestes ecos de quase tudo, das vítimas. Das que estavam felizes por viver, das que não gostavam das flores dos jardins de Madrid, das que iriam ler poemas de amor.

Antes de irem, o que fizeram os homens e mulheres que decidiram matar? Beberam café, falaram de futebol, beijaram os filhos, deixaram passar um cego numa passadeira?

Que diferença entre estes assassinos e os que têm a cobertura dos Estados, das empresas, das religiões? A vontade de falar alto ?

No fundo, vejo o excesso (?) das manifestações de pesar como exercícios de hipocrisia.

Que disse Sampaio (o Presidente de Portugal) quando o senhor “Silva” morreu à fome num bairro de lata de Luanda? Esqueceu-se, ainda, dos milhões que morreram esta semana por causa da legitimação dos egoísmos.

E da Dona Clara, de um bairro de lata do Rio de Janeiro, que depois da SIDA ter aparecido não teve dinheiro para pagar o «AZT» e morreu, sem consequências públicas ?

E o Ezequiel que viu os filhos morrerem num campo de refugiados ?

E a Albertina da Conceição que se tornou cadáver em Nova Deli, por falta de dinheiro?

O terrorismo tem vários rostos e não acaba no acesso mais rápido.
posted by Antonio Joao Correia @ 7:21 AM  
9/Mar/2004
Melancolia

Mudei de computador. O disco rígido estava velho. Como eu compreendo estas metáforas da informática.

A melancolia faz com que diga adeus ao velho Toshiba. Foram vários anos de bom convívio. O novo é melhor, mais rápido mas perde mistérios (ainda não saberá dos poemas que nunca serão escritos).
posted by Antonio Joao Correia @ 5:17 PM  
4/Mar/2004
Sobre a hipocrisia (Portugal 2004)

Este «meu jejum» de notícias de Portugal durou uma semana.
Vejo televisão e discutem que um tal de Avelino do Marco, alegado arruaceiro, invadiu o campo num jogo de futebol contra o Santa Clara dos «meus» Açores...Curiosamente ninguém fala no facto, certamente irrelevante, de o «meu» clube açoriano gastar milhões e milhões de dinheiro público e a Policia Judiciária andar a investigar (segundo notícias esquecidas desde 1999).... a utilização desse mesmo dinheiro público. Ou seja, e em resumo português:

- É considerado escândalo e tema nacional ao nível de merecer comentário do Presidente Sampaio o que um arruaceiro fez num campo de futebol;
- Aceitou-se (aceita-se), no entanto, que durante anos as polícias em Portugal tivessem (têm?) vários critérios de actuação, tudo dependendo de quem é o «autor do acto criminal» (vide o processo da pedofilia e relacione-se os comentários de órgãos de soberania sobre processos judiciais em curso e as mudanças no poder político, judicial e a «rapidez ou lentidão» das investigações...);
- É ainda aceitável que a mais pobre Região de Portugal(dizem as estatísticas) gaste milhões e milhões dos dinheiros públicos para oferecer a um clube de futebol que o gasta como quer, inclusive com negócios privados entre os respectivos dirigentes e o próprio clube com a cobertura da direcção de um partido político;
- Que quem dá o dinheiro público seja cúmplice desta forma peculiar de promover a Região Açores;


Seria, então, bom ver como se financiam as campanhas partidárias de alguns partidos políticos na Região Autónoma dos Açores. Seria, pois, bom. Mas o Ministério Público não investiga? Pois. Como a GNR do Marco nada fez? Pois.


Por outras palavras: o Avelino do Marco é um exemplo triste, horrível mas não é hipócrita no seu triste comportamento. E comparado com o que se faz nos Açores em nome da política, até é caso de uma banalidade e irrelevância assustadoras.
posted by Antonio Joao Correia @ 5:28 PM  
A perfeição

A partir de uma certa altura ficou o destino. A mulher levantou-se, levou a mão ao cabelo, e partiu para o purgatório.

Várias ondas rebentaram numa praia em Tofino. Eu deveria morar em Tofino o resto dos meus dias. Lembra-me a ilha de Santa Maria, um vento que nem é bem vento, umas pessoas que poderiam ter sido pessoas.

Tenho de voltar. Não vejo as folhas. Parece que nevou nas montanhas.
posted by Antonio Joao Correia @ 9:00 AM  
2/Mar/2004
Luxos asiáticos

Hoje nadei duas horas. Um luxo. 20 minutos de sauna. Outro luxo. Tudo para me preparar para o próximo fim-de-semana: o pior «esquiador» do hemisfério norte vai voltar a descer, em câmara lenta, uma montanha (um monte para quem procura o rigor). Não nasci para esta actividade mas não desisto. Fontes anónimas e mal intencionadas dizem ainda que depois de (me) consagrar como o mais lento patinador no gelo que há memória, não desisto de provar a teoria do «falso lento» ao descer uma montanha.
posted by Antonio Joao Correia @ 6:23 PM  
Como se o desejo fosse outra vez destino

A distância da pátria agudiza o espírito. Restam os emigrantes Jorge de Sena, Rodrigues Miguéis, Camões, Herculano, Garrett, Eça, Camilo Pessanha e a verdade preguiçosa do professor Agostinho da Silva. Até Saramago, escritor do regime, teve de partir para ir regressando aos poucos.

Camilo entra aqui por acaso, por me fascinar o desastre do escritor com talento mas perdido na tentação do amor, de todo o amor obviamente.

Estou em greve de notícias de Portugal. Nem sei do que importa: do Benfica, da corrupção moral e da hipocrisia política nos Açores, dos bailes do Alberto João, da nudez do Estado português.

Devo ir a uma associação portuguesa da diáspora: aquele cheiro a vinho verde, a pouca higiene, uns carapaus fritos (em São Miguel diriam chicharros com molho de vilão), a esperteza e um ressentimento mais justo que o meu.

A mulher da mesa ao lado pede-me açúcar. Agora não, estou a escrever coisas importantes. O romance qualquer dia aparece neste espaço.

Mais uma coisa qualquer que nem me lembro.
posted by Antonio Joao Correia @ 11:19 AM  
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