| Resistir |
"Blog" livre, feito a partir do Oceano Pacífico, por António João Correia, um exilado na América do Norte. "Resistir" is Antonio Correia's free blog. From the Pacific Ocean... |
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| 30/Set/2003 |
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| Os mistérios do amor. Nada. Tudo. |
posted by Antonio Joao Correia @ 5:41 PM   |
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| 29/Set/2003 |
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Se não soubéssemos da tentação das ilusões
Seríamos o olhar da perdição, o precipício da ternura
A solidez do desprendimento;
Se soubéssemos da raiva do amor, deste amor, amor
Estaríamos no olhar da inquietação, da ruína moral
Na integridade das possibilidades;
Vem, outra vez, vem e estraga a entrega, inventa a posição
Sobre o fascínio da escolha, desta escolha;
Se não soubéssemos de mais nada,
De mãos dadas no infinito da miséria, desta miséria diríamos:
Não sei. O caminho dos espelhos é a nossa vida.
Soubemos tantas vezes.
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posted by Antonio Joao Correia @ 5:10 PM   |
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| 28/Set/2003 |
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| Onde estará o fim da história ? Nos homens ? Na poesia ? |
posted by Antonio Joao Correia @ 6:04 PM   |
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| 27/Set/2003 |
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O fatalismo
No universo da fatalidade portuguesa fica o destino. Sempre foi assim, sempre assim será. O trabalho é coisa para estrangeiros ou portugueses sem outras alternativas, dizem os entendidos, os que nos fazem acreditar que temos democracia todos os dias. Democracia, entenda-se, para a maior parte dos cidadãos que não colocam em causa o tal fatalismo, a ordem das coisas.
Num acto habitual das estrelas portuguesas, José Saramago perdeu eleições para a Sociedade Portuguesa de Autores e, como bom homem da democracia, demitiu-se. Isto é, Saramago só ficaria na Sociedade Portuguesa de Autores se os outros sócios tivessem votado nele. Não sei se nos Jerónimos ao lado do Fernando António ou se no Panteão ao lado de alguém desconhecido, mas Saramago reflecte o seu povo melhor do que ninguém.
Uma deputada portuguesa, Maria Elisa, fica doente, mete baixa, enquanto ao mesmo tempo trabalha na RTP. Como o esquema não resulta, irá para Londres como Conselheira de qualquer coisa. Como a Lei obriga que uma pessoa para ser Conselheira seja licenciada (Portugal outra vez ridículo) inventa-se um esquema habitual: Maria Elisa será Conselheira de Imprensa, e aqui a licenciatura é irrelevante.
E o progresso chega todos os dias em forma de fatalismo.
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posted by Antonio Joao Correia @ 5:04 PM   |
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| 26/Set/2003 |
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Os poetas e Herberto Helder
Herberto Hélder tem palavras que ultrapassam qualquer definição de poesia. Como se o sentido da vida fosse ao encontro das palavras que rejeitam a facilidade. De poeta mítico da nossa modernidade chegou a poeta das línguas todas, a voz que se ouvirá sempre. Diz Herberto Helder que já nenhum poder destrói o poema. Não haverá mais poeta, não haverá mais decência do que esta.
Imagino por onde andarão os poetas leitores de Herberto. Pergunto se ficarão contaminados de ética, do serviço moral da literatura, da honradez da humildade. Ou se irão em busca dos prémios, da fama, do poder.
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posted by Antonio Joao Correia @ 5:00 PM   |
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| 25/Set/2003 |
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Amina Lawal
A absolvição não apaga a repugnância de uma lei sem sentido, onde se misturam o pior da condição humana e a influência de justiça dos Deuses administrados por humanos.
Sabe-se, assim, que amanhã será um dia igual aos outros na Nigéria.
Nada de novo na forma como o ser humano se torna criminoso ao decidir sobre a moralidade dos caminhos do amor, do afecto. Desta vez a diferença esteve na notícia que se tornou notícia de primeira página, sempre na onda hierárquica de compromissos que se vão estabelecendo.
E, podemos andar perdidos, mas acabamos sempre combatendo as mesmas bestas, animais. Não há outra alternativa. O silêncio aqui é uma forma de cumplicidade.
Amina Lawal será esquecida. O silêncio, para nossa desgraça, vencerá. E os direitos humanos continuarão apenas para alguns.
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posted by Antonio Joao Correia @ 5:39 PM   |
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| 23/Set/2003 |
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Política portuguesa
Não se sabe ainda quem manda. Percebe-se, no entanto, de onde vem a influência, a sugestão que é sempre obedecida, a inevitável projecção de uma pátria corrupta em segredo familiar.
Para além das eleições em 2004 (legislativas regionais e europeias) já cheira a presidenciais e até a um provável golpe de misericórdia na coligação algo contra natura entre uma certa extrema-direita com Portas e uma direita «soft» com Barroso. A curiosidade e comparação com o que se passa nos Açores é interessante: o PSD não sabe como justificar qualquer acordo com o PP, uma espécie de parente minúsculo da política das ilhas, e o PS vive a euforia autocrática.
Da esquerda actual (teoricamente a minha esquerda) sabe-se, pois, quase tudo: o PS está entregue a uma liderança amorfa e nervosa, o Bloco não deixa a angústia juvenil de uma raiva contra o mundo, o PCP está numa silenciosa guerra civil, sem utopias.
O povo, como sempre, segue o caminho dos hipermercados. E fico com a sensação que a pátria está entregue a alguma estatística com personalidade sádica.
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posted by Antonio Joao Correia @ 5:00 PM   |
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| 22/Set/2003 |
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| Somos felizes. Seremos felizes. |
posted by Antonio Joao Correia @ 5:07 PM   |
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Os limites da memória
Ao lado da eternidade fica o poema da matéria, meu amor;
Em Vila do Porto a mulher vestida de castanho em promessa desejava outra mulher, meu amor;
O aeroporto de Santa Maria levava as pessoas virgens para a América, meu amor;
Ninguém lia o poema, meu amor;
A matéria do desespero, meu amor;
O padre Lopes fazia versos sobre as rosas que não caem mortas mas de sono, meu amor;
Carolina trabalhava numa fábrica de Fall River como operária e fez dezassete abortos, ao lado da América, meu amor;
Vimos o Espírito Santo vestido de Elvis, em Jamaica, Queens, Nova York, meu amor;
Ao lado da eternidade fica o homem que desejava ser matéria, meu amor;
Em Vila do Porto tivemos 20 valores no exame nacional da quarta classe, meu amor;
Rita trabalhava como operária do sexo na pensão Friagem do senhor Pacheco taberneiro, meu amor;
Sacas de roupa com polyester alimentavam o arquipélago, meu amor;
O padre Lopes morreu de amor;
A condição respeita o fim, não rima.
Carolina colocou os filhos em Harvard e fugiu para o mar, meu amor;
Ao lado da eternidade e dos limites da solidão fica o poema da matéria, meu amor.
Ela desejava ( meu amor).
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posted by Antonio Joao Correia @ 5:01 PM   |
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| Ponta Delgada, Providence, Vila do Porto, Lisboa, Toronto, Porto, Nova York, Vancouver, Rio de Janeiro, Buenos Aires e acho que já não tenho para onde ir. Um turista desempregado. Um colega do poeta que também ficou à espera. Está tudo descoberto. Tudo foi dito. Estou à espera dos poemas da eternidade e é tudo irrelevante. |
posted by Antonio Joao Correia @ 4:09 PM   |
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| O poema deveria ser o amor. O afecto das coisas. Como eu gostaria de voar e afeiçoar a matéria. Ela não sabe que eu esperei pelo pôr do sol. Era da tarde mas já ninguém se lembra. |
posted by Antonio Joao Correia @ 4:06 PM   |
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| 21/Set/2003 |
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| Aos Domingos ia à missa em Santa Maria. Pelas onze horas. O tempo, entre uma hora e uma hora e meia, era o da eternidade das coisas que não se sabia. Da tarde o Benfica jogava. Iamos ao aeroporto. Em Santa Maria ir ao aeroporto fazia o sentido todos os dias. Nunca mais vi ninguém que ia à missa em Santa Maria. Não sei se o Benfica ainda joga da tarde. Duvido que faça sentido ir ao aeroporto todos os dias. |
posted by Antonio Joao Correia @ 9:26 AM   |
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| 20/Set/2003 |
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| Trabalho numa peça sobre o amor dos outros. Os destinos do afecto. A perdição em formas coloridas. Vou atrasado. Irei. |
posted by Antonio Joao Correia @ 10:11 AM   |
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Não sei onde está o casaco. Devo ter deixado em casa da Heather. É estranho pois não conheço ninguém chamado Heather. Tenho aulas. Sou professor. Os alunos gostam de mim, embora não saibam do que é que eu falo. Eu também não sei, mas não importa. Nada importa. Gosto dos dias tristes. A Heather deveria ser, se existisse, uma mulher depressiva.
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posted by Antonio Joao Correia @ 10:08 AM   |
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O dia está triste. Vejo televisão. Gosto de ver televisão de manhã. Quando era criança não tinha televisão, ninguém tinha. Mais tarde havia televisão à noite com descanso semanal depois do Domingo. Será uma espécie de vingança luxuosa, ver televisão de manhã.
Um homem de Santa Maria disse-me, ou disse ao meu avô, que esperou quarenta anos para comer um bife no hotel do aeroporto em Vila do Porto. Era a sua vingança. Pobre, filho de pobres, teve de esperar que a fortuna acontecesse para entrar num hotel de duas estrelas com empregados cheios de nódoas. Por coincidência o hotel ardeu dias antes do bife, ou talvez do peixe cozido, pois o homem era muito doente e não podia comer um bife com gordura, ovo e batatas fritas. Agora construíram um hotel novo, com piscina, mas esqueceram-se do bife, do homem que esperou pelo bife. Os quartos têm televisão com mais de cem canais.
Vejo a CNN. Morreram mais americanos no Iraque. Um batalhão de polacos perdeu-se. Emagreci. Tenho de ir.
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posted by Antonio Joao Correia @ 10:04 AM   |
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| 19/Set/2003 |
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| Não sei onde ir. Irei de qualquer forma. Irei. |
posted by Antonio Joao Correia @ 10:42 PM   |
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| É tarde, vou jantar. Depois não sei. |
posted by Antonio Joao Correia @ 10:39 PM   |
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| Hoje seria um bom dia para escrever sobre Deus. Talvez escreva sobre futebol ou sexo, para me arrepender com culpa. |
posted by Antonio Joao Correia @ 10:20 PM   |
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| Nada deverá fazer sentido. As personagens do livro teimam em não aparecer. Os leitores não gostam das pessoas que não se fazem notar antecipadamente. Fomos às compras. Ela odeia centros comerciais. Esqueci-me de dizer que estamos na América e falamos português. |
posted by Antonio Joao Correia @ 10:10 PM   |
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Poema português
Para quem vive no exterior de Portugal e seja português, a obsessão com a existência de um Portugal injusto, dominado pela inveja, corrupção, compadrio, miserável atraso social e doença da hipocrisia leva a que se imagine que talvez Portugal não exista, sendo provavelmente "algo" a que se chegará depois de qualquer coisa pouco definível.
Vejo um campo de futebol gigante - e eu serei do Benfica - rodeado por campos de golfe que consomem a água dos incêndios previsíveis. Mais medidas, relatórios e uma comissão que servirá para devolver o orgulho perdido será a esperança para mais projectos de nível europeu ou mundial.
Vejo ainda políticos imbecis e um povo pouco culto, uma classe média quase atávica que se perde nos passeios dos hipermercados - palavra portuguesa que dirá quase tudo - e sobretudo a impunidade como orgasmo nacional, aceite como maldição de uma certa religiosidade mal assumida.
Em 1975 nacionalizaram uma barbearia, em 2003 privatiza-se o sexo profissional em Lisboa.
Vejo ainda turistas que não disfarçam o incómodo com a pobreza de que ninguém fala.
Portugal tem muitos pobres mas nada se sabe sobre a pobreza que se vê.
Foi preciso um jornal investigar a pedofilia para se fingir que a justiça funciona (e todos sabem que, como nos hospitais portugueses, a justiça está de olhos bem abertos para os fregueses).
E os poetas desapareceram ou receberam um subsídio para criarem a poesia oficial.
Os escritores escrevem sobre tudo, menos sobre Portugal.
Ninguém tem opinião, a não ser que não destabilize, que não incomode.
A mulher - uma mulher - do mercado de Campo de Ourique, não se lavou e lembra os diários ingleses sobre a Lisboa pouco asseada do século XIX.
Os estudantes cujos pais não pagam impostos, dizem que não pagam propinas.
Os filhos dos operários não estudam em Universidades públicas.
As notícias são manipuladas, por interesses económicos, como no regime autoritário de Salazar (como agora se diz); Liberdade, liberdade.
A telenovela com actores portugueses está consagrada com textos traduzidos a partir de bons amantes venezuelanos.
Passeia-se pouco na Avenida da Liberdade, que é Lisboa, Portugal.
Três esquilos reproduziram-se em Monsanto.
Maria de Lurdes ficou com SIDA, também em Monsanto.
O Cais do Sodré tem o Texas.
Maria Barroso mulher de Mário Soares deu uma entrevista para a televisão.
O peixe no Gambrinus está congelado.
Iremos discutir a qualidade europeia, as árvores gramaticais, o custo de vida. As velhas colónias. O que poderia ter sido.
Um poema português !
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posted by Antonio Joao Correia @ 11:32 AM   |
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| 18/Set/2003 |
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O destino de nada mudar
O silêncio hipócrita sobre os crimes conhecidos, a conivência com a oportunidade política em detrimento dos valores éticos, a exploração dos trabalhadores com salários de miséria, a não separação entre os poderes político, económico e judicial fazem da nossa terra um caso de sucesso na teoria pós moderna da separação dos poderes.
Inventada, entre outros notáveis, por políticos profissionais, empreiteiros corruptos, empresários que recebem subsídios, funcionários ambiciosos, avençados dos partidos, dirigentes desportivos ladróes, deputados aposentados, jornalistas pagos por merceeiros, esta teoria é motivo de orgulho para o nosso absoluto desenvolvimento.
Uma administração da justiça regional que tem conhecimento das notícias dos crimes e espera pela compreensão – orientação – do poder político para actuar diz-nos, com afectividade, mais sobre a qualidade de vida das instituições indígenas do que qualquer estatística que lembra que os Açores são, por acaso, uma das regiões mais pobres da Europa.
Uma administração política que espera pela orientação do poder económico para agir é, como se sabe, sinal de garantia de êxito e de grandes projectos açorianos. Que interessa, pois, a pobreza açoriana se a televisão é controlada pelo partido que ganha as eleições e a cultura média de quem dá vitórias eleitorais não se incomoda com o estilo mentecapto da cultura oficial da subjugação ao fatalismo da incompetência.
Sabemos, então, com vaidade, que está tudo bem desde que o clube desportivo imaginado tenha dinheiro público para gastar com prostitutas ou esquemas mafiosos, a igreja de Nosso Senhor tenha um telhado novo, o médico conhecido dê um jeito nas urgências do hospital, o júri do concurso prefira quem o chefe indica, a avença seja entregue ao filiado da facção correcta, a empreitada seja benéfica para o financiamento do partido e os simpáticos políticos actuais apareçam numa procissão religiosa ou campo de futebol prometendo dinheiro, saúde, empregos para quem votar “bem”, dívidas para não respeitar e eventualmente vinho de cheiro para todos que seguem a verdade oficial.
O dever do exercício das actividades em nome do povo resume-se, então, à arte da sobrevivência para a manutenção dos poderes, num respeito costumeiro que priveligia a negligência como forma de sucesso regional e a tragédia da ignorância como alicerce do progresso inexistente. Em 2003 estamos como sempre, algures entre o medo dos terramotos e o destino de nada desejarmos mudar.
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posted by Antonio Joao Correia @ 6:33 AM   |
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| 17/Set/2003 |
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Amantes
Acordei junto à minha amante. Gosto de acordar ao lado de uma amante, de utilizar com abuso a palavra amante como se fosse aquilo que as pessoas que gosto pensam nos dias em que as ilhas procuram o amor no afecto.
Sou, assim, na medida do possível, um homem açoriano que gosta das coisas boas da vida mas que insiste em especializar-se em amantes. Também gosto do mar, de comida e de viajar pelo mundo, o que por vezes é irrelevante.
Estive em Vila do Porto (de onde nunca gosto de sair) onde parece que fiquei rodeado de amantes, algumas das quais excessivamente reais e com uma volúpia difícil de explicar, pelo menos sem recurso aos adjectivos mais íntimos e que nunca devem fazer parte de uma crónica alegadamente sobre política açoriana. Em Vila do Porto, convém insistir, nunca estou sozinho, pois tenho a memória de quase tudo, nomeadamente das pessoas felizes que ensinaram e praticaram a difícil arte de se acordar feliz junto à amante ou às amantes possíveis num tempo em que o amor era outra coisa qualquer.
Na ilha de Santa Maria, dizem os sábios, as amantes parecem que não desejam mais nada do que a apreensão do próprio desejo, como se o mundo se reduzisse à procura do ângulo mais favorável de um sentimento que nunca é insignificante na procura do desespero através dos limites da sensibilidade. Morri junto à minha amante. Não gosto de morrer ao lado de uma amante, nem aprecio a utilização exagerada da morte no amor como forma de atrevimento poético, mas se morri junto à minha amante, tenho de escrever que morri, ainda que o espaço da crónica insinue que devo redigir sobre a banalidade da corrupção dos políticos desconhecidos, a fuga para o direito privado do governo, o triunfo da fraude à lei nos Açores e a felicidade da maioria do povo que gostará, eventualmente, de ser governado por aldrabões.
Estive em Los Angeles para escrever sobre as amantes que vivem para a felicidade moderna mas tenho de reconhecer, por ingenuidade, que não sei por onde andam os poemas fáceis que se entregam à existência. Nada direi, no entanto, sobre a sensualidade exequível das pessoas que acreditam na importância do amor. Escrevi, é verdade, sobre a existência de Deus como se fosse um imitador do estilo de Graham Greene mas não vi sinais de Rita Hayworth ou do roteiro dos anjos famosos nas ruas de Beverly Hills.
Por outras palavras, sem Vila do Porto por perto não sei escrever sobre amantes e sucumbo nas virtualidades do poema como partilha da matéria da vida, o que também é irrelevante.
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posted by Antonio Joao Correia @ 12:02 AM   |
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