| Resistir |
Um blog de António João Correia. "Resistir" is Antonio Correia's blog. From the Pacific Ocean...Almost in Portuguese. |
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| 07/01/2012 |
| Kaváfis esperando bárbaros no aeroporto de Santa Maria |
Ninguém é da terra, vejo as fotografias e nem consigo ver fantasmas, nem sequer os caminhos invisíveis das memórias, esta gente extinguiu-se com a vida, nossa e deles, se ao menos fosse verdade que mudo a página e no fim do ano reconheço uma cara, como os anos passaram, esta rapariga era tão bonita, como terá sido a sua vida, será que ela se lembra de mim? Envelheceu tanto Nunca mais vi António e Sofia à minha espera, tenho lido poemas para me justificar, mas para quem vive no Pacífico a realidade satisfaz, dizem que por vezes nem sei se Vila do Porto terá existido ou se a terei inventado, não seria a primeira vez que destruímos impérios para um verso imaginário, e não consta que W.H. Auden tenha percorrido as ruas da minha infância? Para me perder bastava-me encontrar uma razão, não existe abandono que nos amaine, felicidade que arruíne a origem da ingratidão, outros fundaram Impérios do Espírito Santo, outros morreram sem me avisar, fomos para a América, temos armas, sotaque, misérias, desejos e dinheiro para salvar o mundo Como é que ela se chamava? Em Vila do Porto Deus existia, Nossa Senhora da Conceição aparecia em procissões e eu ajudava na igreja, quem são as pessoas que invadiram a minha terra? Ou terei ido, para sempre, para um exílio que nunca mais irei regressar Kaváfis esperando bárbaros no aeroporto de Santa Maria, ateus que me converteram, mouros, revoluções, escravos, tempestades, poemas, todas as mulheres do mundo que me amaram mas nunca mais parti para o mar de São Lourenço.
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posted by AJC @ 5:04 PM   |
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| 24/12/2011 |
| Açorianos de todo o mundo, uni-vos! (quase um poema de Natal) |
Agrava a culpa dos açorianos livres, ninguém lhes define a alma e Até acreditam em Deus, na matéria e na eternidade da pobreza, somos católicos Quando o resto do mundo imita a violência de Cristo nascer todos os anos para Nos salvar de nós próprios, dos orgasmos e da cruel natureza humana, licença poética, São Paulo é o inventor do nosso cristianismo, disse a mulher, nem saberia do fim destes tempos, e com o tempo deixei de falar em português, como as minhas filhas e as mulheres da minha vida Nem Maria, nem José, precisam de cash na pátria, dinero caliente, like a rolling Stone, disse o poeta, Serão um hedge fund melancólico? How does it feel? Falarão de amor? Quem amas? Fomos colónia de presidiários, exportamos mão-de-obra para o Sul do Brasil, mineiros para o Norte do Canadá, operários para as fábricas, no tempo em que a América as tinha E Deus fomos nós, cuidado com a gramática, entre terramotos e um mar que só nos matou Uma linha para o Espírito Santo, estou convertido, nunca nos faltaram miseráveis para alimentar Escrevo para nos salvar, disse a mulher, Cristo era uma mulher das ilhas, Deus não tem sexo, será o tempo E a salvadora para um povo que perdeu a memória da agonia pela agonia, da misericórdia o café deste hotel está vazio, foram rezar pelo nascimento, Cristo, Cristo, Cristo, sem culpa inventou açorianos para nos libertar de Cristo outra vez E Belém era numas ilhas que nunca mais vi, nem saberia se tentasse, poema para ler em desespero, sem desejo, não poderia existir um Deus vingativo, justiceiro, escreverei matéria, o espaço da revolta do poema arruinado pela saudável falta de leitores Açorianos de todo mundo, uni-vos!, Jesus veio para nos salvar. |
posted by AJC @ 10:19 AM   |
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| 11/12/2011 |
| Ponta Delgada |
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posted by AJC @ 10:12 PM   |
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| 26/11/2011 |
| Notícias do Benfica, pátria e de Eurico, o Presbítero |
Mais uma vez, estou sentado numa tasca do Pacífico para ver um jogo de futebol, talvez a única ligação que ainda tenho com a pátria, e que pátria
sem Deus, espero do meu Benfica o que Portugal nunca deu a Camões; hoje, na tasca, não têm bacalhau no forno, pelo que terei de escolher outra coisa, talvez um bife; com os anos tornei-me conservador, se é Sábado, se estou no Oceano Pacífico, se o Benfica joga espero bacalhau no forno, com azeite. A rapariga da tasca fala mal inglês, eu não falo português desde que me exilei, ou me exilaram, o que também é irrelevante, mais língua menos idioma, na América do Norte somos todos conquistadores e ricos pois falamos na forma que nos apetece, e olha a pátria de Herculano alugando Eurico, o Presbítero, com Hermengarda a falar da troika, subsídios, sacrifícios, Otelo, Soares, manifestos, fado, dívidas, sono, maus poemas, sífilis, estado social, repetições e o drama do subsídio de Natal. Portugal à venda. A bancada do Estádio da Luz esteve a arder, não sei se o Cardozo insultou o árbitro, a solução está na emissão de moeda pelo BCE e Portugal voltará para o Oriente, ao serviço do senhor D. João II. Golo. Javi Garcia marcou. Lembra o Toni nos anos setenta. Manuel Godinho não almoçou com Cavaco, Vara gosta de robalos, Duarte Lima já não canta, os outros facilitaram os negócios e a presunção constitucional da inocência tem estilo, se esta besta continuar a escrever para os jornais vocês ficam sem publicidade, disse o senhor grande promoção do turismo, podem ainda levar as pessoas pois Portugal resume-se a alguns restaurantes. Será a troika alguma coisa sexual? A questão passa então pelo Banco Alimentar (mandem a televisão pública alimentar uma criança), dá mais votos, talvez umas latas de atum, de nível europeu, este novo posto de turismo do Porto, poderia ser regional, nacional mas é o melhor da Europa, dérbi intenso, o senhor Arcebispo está preocupado, o orçamento promete um período difícil. |
posted by AJC @ 11:18 PM   |
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| 24/11/2011 |
| Democracia? |
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posted by AJC @ 1:57 PM   |
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| 10/11/2011 |
| Cavaco e os croquetes |
| Mais do que uma visita patética, feita no interesse de meia dúzia de comedores profissionais de croquetes sustentados pelo orçamento português, a visita de Cavaco Silva aos Estados Unidos diz-nos da irrelevância, incompetência e tacanhez da diplomacia portuguesa. Com todo o tempo do mundo, o Presidente português salta então de palanque para estrado de ocasião, como um pobre coitado, perdido, meio ignorante, meio espantado, por vezes deslumbrado com os saloios que o rodeiam, de fotografia para fotografia, emprestando sempre o rosto a uma agenda feita para “encher chouriços”, sem resultados, sem avaliação política (mais um exemplo de como a comunicação social portuguesa não tem sentido crítico quando lhes pagam as viagens). Como outras antes, esta visita servirá para nada. Uma vergonha. Como açoriano, esta visita ainda me diz outra coisa, um insulto deste Presidente ao povo açoriano, pois é óbvio a maneira como esta visita ignora e secundariza os sucessos dos açorianos que fizeram dos EUA a sua pátria, conquistando com trabalho lugares de relevo, seja no mundo económico, financeiro, académico ou político. |
posted by AJC @ 11:57 PM   |
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| 02/11/2011 |
| 100% de acordo (sinais dos tempos) |
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posted by AJC @ 1:55 PM   |
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| 30/10/2011 |
| Hoje acordei assim (sempre no Pacífico) |
Sempre no Oceano Pacífico. Sempre em busca do meu Norte "verdadeiro" (a bordo da Molly Brown, esperando por amigos para um almoço quase açoriano). |
posted by AJC @ 9:24 AM   |
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| 16/10/2011 |
| A razão da memória |
Não faltam soluções para o destino da pátria. Não faltam lágrimas de crocodilo subsidiado. Não falta nada. Falarei do silêncio desta gente que se calou, que sempre se calou. Falarei ainda de quem se exilou por não conseguir viver em Portugal, com esta gente, cheia de soluções, de lágrimas, de silêncio, que se calou, que sempre se calou. Não falarei de poemas. Onde estou? São três horas da tarde num Domingo qualquer. Vivo na costa do Pacífico da América do Norte entre o estreito da Geórgia e as ilhas de Juan de Fuca, terra que me aceitou e nunca me perguntou se sei dos caminhos da revolução, dos favores ou da cor partidária dos cães de fila. Não acredito em Deus, trabalho para o grande capital e já vi o fim do mundo. Também não procuro a confiança do leitor ou a salvação do quer que seja. Busco, apenas, a clareza dos lugares-comuns e a agonia da verdade. Parece pouco mas nada mais tenho para dizer, num Domingo qualquer, neste Pacífico, nesta vida. O senhor Presidente está errado, disse e escrevi tantas vezes. Temos a região mais pobre da Europa comunitária, ainda com políticos corruptos, funcionários preguiçosos, militantes prontos para o saque do bem comum e pedintes com fome que tudo aceitam (é a natureza humana) para comer. Sem a educação desta gente e a igualdade no acesso às oportunidades através do trabalho e mérito dentro de 10 anos estaremos ainda pobres, atrasados, falidos, agoniados em busca de mais uma estrada, homenagem, uma placa de inauguração, uma rotunda, crédito, um favor, uma esmola.
Encarrega-me ainda Sua Excelência de comunicar que se Vossa Excelência declarar em público a notável modéstia e o brilhantismo deste governo, o pedido de emprego para o nosso jovem camarada será deferido. Aproveito ainda a ocasião para comunicar que poderá contar com a discrição dos serviços judiciais no contrato público ilustrado e a total colaboração da televisão e rádio públicas na nossa causa. Um pouco mais de pobres daria jeito, talvez umas fotografias junto do Banco Alimentar ou uns computadores para pessoas desfavorecidas possam ajudar. E quase todos se calaram. O senhor Bispo aceitou uns telhados novos, o clube de futebol um subsídio para pagar a prostitutas, o investigador criminal que nada investigou dos abusos contra crianças foi promovido, o vizinho foi para a praia, o escritor que falou bem teve o livro publicado com dinheiro público e vimos tantos políticos nas procissões religiosas por causa dos votos ou do sexo. Aos costumes disseram nada. Como se define o atraso? Não sabem viver sem ser à custa do orçamento público, protecção de uma qualquer padrinho político, obras inúteis que apenas pagam campanhas partidárias, ignorância, selvajaria cívica, ladroagem, abusos e injustiças. São muito pobres e atrasados mas não sabem. Não querem saber.
Durante anos e anos quase todos se calaram. E agora reclamam? Do quê? De ninguém desejar pagar as vossas contas? De não existir dinheiro para pagar o vosso silêncio? De perceberem que são tão cúmplices como quem vos roubou? Da injustiça dos credores? Deixem-me rir. Tentei, direi ainda, viver com esta gente, tentei no limite das minhas forças demonstrar que estavam errados, que eram colaboracionistas com a ignomínia, com a destruição do futuro. Mas não consegui. Ninguém gosta da verdade antes do tempo. |
posted by AJC @ 4:04 PM   |
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| 15/10/2011 |
| E a Mota? |
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posted by AJC @ 6:45 PM   |
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| 13/10/2011 |
| Portugal |
Portugal em colapso. Pois. E povo?
Bem, o povo paga.
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posted by AJC @ 3:06 PM   |
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| 10/10/2011 |
| Ainda existe? |
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posted by AJC @ 5:03 PM   |
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| 19/09/2011 |
| A Autonomia subsidiada |
A Madeira e os Açores, com maior ou menor vergonha, decidiram, desde 1976, viver à custa do endividado contribuinte continental. Este, coitado, decidiu viver à custa do contribuinte alemão, que trabalha para sustentar estes povos que tanto falam em democracia como em desenvolvimento, desde que sejam outros a pagarem as contas e a assumirem os riscos. O modelo das Autonomias regionais portuguesas deu de comer e enriqueceu muita gente mas falhou. - Criou duas regiões autónomas, com honradas excepções, de falsos autonomistas que preferem um bom capataz a negociar com Lisboa umas esmolas orçamentais do que em honrar o seu próprio destino com trabalho, honra, inovação e criação de riqueza; - Depois de milhões e milhões deitados ao lixo, não se percebe o nível de pobreza (o caso dos Açores não tem explicação, ainda uma das regiões mais pobres da Europa!); -Criou muita gente apática, pobre, paroquial, sem consciência das suas obrigações cívicas, mas sempre com direitos; -O de facto Estado regional, filho das Autonomias, tudo cria, domina, perfilha, controla, aconselha, pede, ajoelha, arrasta, vomita, dá. A iniciativa privada mal existe e está subjugada ao favor, às clientelas, jeito, voz do dono. Ao destino do atraso. E parece que ninguém se importa. |
posted by AJC @ 8:47 PM   |
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| 16/09/2011 |
| Da salvação do mundo |
Hoje entrei num supermercado ao som de Stevie Wonder acho que em versão gipsy de Biréli Lagrène. Fui, obviamente, para salvar o mundo. Decidi, eu que nada compro, fazer compras. Adoro a depressão quântica dos supermercados da América profunda, onde as almas se perdem e os amantes se reencontram na banalidade da maionese ou de ostras enlatadas, e eu, é importante dizer, nem gosto de ostras mas se uma pessoa decide salvar o mundo os gostos pessoais são uma redundância abstracta. As ostras são para uma sopa. A maionese é para qualquer coisa onde se exige maionese, talvez atum. E também comprei pão, ovos, leite, azeite, Ovomaltine (aos quarenta e três anos ainda bebo Ovomaltine), arroz, batatas, laranjas, maracujás (o açoriano em mim aparece sempre), salmão e outras coisas que já nem sei. E fui pagar. A senhora da caixa, entretanto, sem razão aparente, dá-me um papel para rasurar e, sem pecado ou destino provável, informa que eu ganhei um peru. Sim, um peru. E do misterioso armazém vem um senhor com um peru gigante, certamente com hormonas de crescimento, congelado, presumo que morto e feliz. Congratulations! Disse a senhora da caixa. Ainda tentei recusar mas uma pessoa não vai salvar o mundo para ofender quem quer que seja. |
posted by AJC @ 10:20 PM   |
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| 11/09/2011 |
| Aleatório (num 11 de Setembro) |
Estava num avião entre São Tomé e Príncipe e Cabo Verde. Meio doente por causa de uma reacção alérgica à medicação contra a malária, já com tudo decidido para voltar para a América do Norte ou talvez para Londres ou para Buenos Aires onde regresso quando estou perdido. Onde gostava de regressar. Onde nunca mais regressei. Numa televisão do aeroporto do Sal vi os aviões, vimos todos. O que é que se pode dizer?
Meses depois visitei o "Ground Zero" e uma pequena capela, quase ao lado, e percebi que era mais um turista nesta ansiedade pelo horror contado. Gosto tanto da América, mesmo quando não gosto. Faz falta, quero dizer, o silêncio da imagem quando outros morrem. Respeito.
Não me revejo nos métodos do combate contra o Islão fanático, mas não tenho melhor solução, pois acredito no direito à defesa e segurança dos povos. Nos últimos meses defendi Israel. Também gosto de Israel, mesmo quando não gosto. Interessa o quê? Tenho amigos muçulmanos que não me entendem. Uma amiga minha era tenente do exército israelita (nunca mais nos vimos, pois eu já não vivo em Toronto). Interessa a quem?
Entre os fanáticos do Islão, como antes (?) os de Cristo ou de qualquer coisa e a liberdade a decisão é fácil: este Ocidente é melhor que a alternativa. Como se existisse alternativa.
Vejo o Oceano Pacífico todos os dias. Estou na terra da liberdade. O que é que se pode dizer? Gosto da vista deste quarto. Com os anos ficámos deste lugar, que sempre nos tratou bem.
Não creio em Deus. Creio na evolução bárbara, acidental. Penso em regressar a Portugal, imagino nunca mais voltar a não ser para lá colocar o meu corpo (as cinzas espalhadas no mar da praia de São Lourenço). A irrelevância de cada um. Portugal continua a meter-me nojo, digo este Portugal que vi, vejo. Fui tão feliz em Lisboa. Em Vila do Porto. Em qualquer lugar. Aqui.
Uma mulher que eu poderia amar diz-me que não existe como eu imaginei. Os poemas existem, vejo pouco mais para além dos poemas que gosto. O amor interessa, tudo o resto é acessório, leio numa parede. Gostaria de ler outras coisas. Gosto de te ver.
Gosto de ti, leitora imaginária, pelo teu tempo aqui. Não gosto da brutalidade da minha terra de nascimento, da pobreza, da miséria, da corrupção, da injustiça, da forma como o povo é enganado. Não sei se devo escrever em português. Duvido que aqui esteja a minha pátria. Sei do teu corpo. Saberei das nossas ilusões. Por vezes as pessoas choram.
Não sei da forma de mudar o mundo. Pelo menos que eu não mude. Mudei tanto. Quem?
Esperança.
11 de Set de 2006 |
posted by AJC @ 10:53 AM   |
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| 09/09/2011 |
| Do meu bairro |
O meu bairro tem dezenas de cafés onde se vendem sonhos e lugares-comuns. Tem mais loucos por metro quadrado (ou pés quadrados como aqui se escreve) do que qualquer outro bairro na América do Norte. Tem barbeiros que só trabalham para jamaicanos, outros para italianos e outros ainda só para vietnamitas. Tem restaurantes cubanos, belgas, etíopes, italianos, gregos, indianos, franceses, paquistaneses, chineses e ucranianos. O meu bairro tem. Tem alfaiates e sapateiros. Mercearias que vendem refrigerantes dos anos cinquenta, pudins da Sicília, bolachas do Irão, sabão do Chile, gente muito rica e outros que vivem na rua em cartões ou cobertores. Tem poetas, escritores, mulheres na menopausa, antropólogos, juristas, adivinhos da Rússia, dentistas, médicos, policias à paisana, cocaína, heroína, crack, creches, escolas privadas, web designers e lojas de ferramentas. Tem, o meu bairro, uma senhora sempre vestida de preto, de São Miguel, que ficou viúva aos vinte anos, nunca mais saiu do bairro e entende que Salazar foi um símbolo sexual (eu já falei com ela, no meu bairro). Tem, sim senhor. Tem exilados. O meu bairro tem uma livraria do partido comunista, outra de anarquistas e uma de gente que diz que Jesus salva. No meu bairro existe uma estação dos correios que fechou em 1967, gente que só fala francês com sotaque chinês, dois ou três bordéis, várias igrejas, um centro de fisioterapia, sumos do Tibete, mulheres muito bonitas, desertores da guerra da Coreia e uma federação internacional de lésbicas não socialistas. Tem um café de toureiros de Almeirim que vende Sumol e águas das Pedras. A Greenpeace, em 1971, por exemplo, começou no meu bairro. Dennis Hopper, pouco antes de morrer, veio ao bairro visitar um café onde eu tenho uma mesa reservada para salvar o mundo. A Raquel, mais um exemplo, deu um empurrão no Brad Pitt (ele estava num restaurante vegetariano), sempre no meu bairro e eu até vi a Jéssica Alba, que eu não sabia quem era, filmar no meu local de trabalho. Tem, ainda, o meu bairro, centenas de pessoas que não sabem quem são o Brad Pitt, a Jéssica ou o Obama; que, aliás, nunca esteve no meu bairro, mas o Stephen Harper que é Primeiro-ministro do Canadá, já. Já esteve no meu bairro. Tem vista para as montanhas e não se vê o mar numa cidade rodeada de mar, no meu bairro, temos homicídios, roubos, esmolas, muitos amores, lágrimas, metropolitano, tróleis, agências de viagens, bancos, cinemas independentes, lojas de chás, lago de trutas e uma fábrica de cerveja. O meu bairro tem a minha vida quase toda. Nunca fui tão feliz, como no meu bairro. |
posted by AJC @ 10:11 PM   |
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| 01/09/2011 |
| Do destino do estreito Bab-el-Mandeb |
Parece que ninguém se queixa da violência tributária, miséria ou do atraso;
Estão, por assim dizer, em conforto com a coisa.
É o que é.
Nem um poema.
Nem uma aventura.
Este povo triste, usurpado, infeliz apenas acredita num milagre ou no rapaz que desertou da selecção nacional de futebol.
(não sei como se deserta de um jogo de futebol)
Nos tempos de Afonso de Albuquerque, a quem eu devo lealdade, só desertava quem não sabia o destino do estreito Bab-el-Mandeb.
Por aqui ando, navegando no Pacífico em nome do senhor D. Manuel I,
Pela Graça de Deus, Rei de Portugal e dos Algarves, d'Aquém e d'Além-Mar em África, Senhor da Guiné e da Conquista, Navegação e Comércio da Etiópia, Arábia, Pérsia e Índia, etc (aqui cabe o Pacífico)
disse para não me esquecer da pátria. |
posted by AJC @ 11:13 PM   |
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